segunda-feira, 28 de março de 2011

Homens e Ideias

Parte 2


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ESPERANÇA

Ao meu simpático neto, Manuel Fernando Marinho Felgueiras Painhas, jovem acordeonista, com muita admiração.
A presteza e delicada expressão
com que praticas a arte de Mozart,

constitui uma revelação
de verdadeiro
caso singular!...

Os precoces anelos musicais
tão
pulcros, harmónicos, no
acordeão,
são quais mensagens espirituais
que inebriam meu terno coração!...

Embora teu ânimo de criança,
não
possa interpretar
com segurança,
as belas e imortais composições,

denuncias vívida esperança
a caminhar, com toda a confiança,
ao encontro das grandes ovações.

17/2/1965
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DESABAFOS        
A António Amorim, espírito culto e brilhante publicista, muitos anos radicado no Brasil, com o maior apreço e amizade.

Nestas noites frias, longas, invernosas,
que permitem dormir e meditar,
evoquei
as figuras gloriosas
do meu muito agrado e pensar;

Recordei-me da nossa mocidade
irrequieta, cheia de emoções,

em que o culto p'la Santa liberdade
conquistava
os jovens corações!

Hoje, enquanto por aí muito labutas
e defendes os belos ideais

que originam na vida tantas lutas,

Eu penso nos defeitos sociais,
num Mundo novo, com formas legais,
mas sem ideias falsas ou caducas.

31/12/1965
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DIVINA PECADORA

Na vida gloriosa de Jesus,
que veio ao mundo para nos salvar,
distinguiu-se, na sua dura Cruz,
Uma Mulher estranha, singular!

Amante de um velho imperador,
que
à sua beleza se rendia,
não havia prazer
ou
esplendor
cuja alma lhe enchesse de alegria...

Mas levada ao arrependimento
Pela força de alto pensamento
que a voz do Senhor lhe inspirou,

Teve a graça do celeste Poder
de ser Ela a primeira a dizer:
«Já não está aqui: Ressuscitou»!

21/1/1966
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BELEZA LÍMICA

O Sol anda mais alto, luminoso,
espargindo seus raios criadores,
e todo este vale, tão famoso,
é um ninho de encantos e amores...

Campinas floridas e verdejantes,
com montes de contorno invulgar,
águas cristalinas, sussurrantes,
espelho de pintura singular.

Quem me dera, meu Deus, saber cantar
com pureza, de forma lapidar,
esta rara beleza e harmonia.

Que se evola, em aroma divinal,
desta linda paisagem sem
rival,

como  Notas de excelsa melodia!

22/4/1966
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ANSIEDADE

Se eu tivesse a felicidade,
que
a minha alma tanto adora,
de poder afirmar com liberdade
tudo quanto anseio nesta hora...

Se eu tivesse a felicidade
de poder expandir nobres ideias,
combatendo a dura crueldade
de
as ver torturadas com cadeias...

Se isto, que parece uma utopia,
o confirmasse a força da razão
num gesto de ousada galhardia,

Então, era com íntima alegria
Que me lançava, sem hesitação,
na luta por
um mundo de magia!

6/5/1966

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LUTA DE GIGANTES
Ao culto e bondoso Américo Carneiro, distinto Professor de Português e Latim, com simpatia e admiração.
Nas montanhas do Cáucaso detido
por ordem de Júpiter vingador,
PROMETEU amarrado, contorcido,
debatia-se
em bagas de suor!...

Um abutre que por ali passava,
vendo aquela cena lancinante,
Sentiu chegada a hora desejada
para atacar seu corpo de
GIGANTE.


Como outra jamais se assinalou,
sob a azul abóboda do Céu,
feroz e rija luta se travou
entre o rapinante e PROMETEU.

Mesmo com o fígado a sangrar,
num estado de incrível agonia,
nada conseguiria aniquilar
quem com tanto ardor se defendia.

É que a ânsia de pura liberdade
que animava a SUA GRANDE VIDA,
não permitia que a crueldade
vencesse tão sinistra arremetida.

Surgiu, enfim, HÉRCULES com horror
a quebrar os grilhões do TORTURADO,
enquanto a ave,
cheia de pavor,

fugiu p'ra local mais resguardado.

O DEUS pagão, vencido e humilhado,
não quis mais a façanha repetir,
por se reconhecer bem castigado
ante
o VALENTE MARTIR a sorrir!

20/5/1966
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PEREGRINAÇÃO
A Januário Barbeitos, cujo espírito superior vive nos deleites de constantes e transcendentes lucubrações filosóficas, com muita simpatia.

Quem me dera sulcar todos os mares,
todos os céus e desertos do Globo,
chegar aos mais longínquos lugares
para ver assim
o planeta todo!

Confundir-me com mil e uma raças
auscultando-lhes o amargo labor,

sentir as alegrias e desgraças
e seu ingente esforço criador.

Contemplar os museus, as catedrais
e tantas outras obras geniais
que estão espalhadas
pelo Mundo.

Extasiar minha alma de beleza
em tudo
que
houver na natureza
de mais maravilhoso e profundo.

27/5/1966
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CONFISSÃO
Ao Maestro Miguel de Oliveira, festejado autor de encantadora música popular, e or­gulho de Ponte de Lima, com as minhas homenagens.

P'ra traduzir os grandes ideais
que se agitam dentro do meu ser,
nestes versos simples, triviais,
bem pouco do que sei posso dizer!...

Por isso, não pretendo ser poeta
ou coisa que de longe se aproxime,
antes alguém
que
muito se inquieta
com tudo
o que na vida nos oprime.

Mas, se as musas viessem ajudar
o meu
estro
poder manifestar
com vibrante e fecunda inspiração,

num poema sublime, magistral,
havia de exaltar
um
ideal
onde
não existisse escravidão!

17/6/1966
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EXALTAÇÃO
Ao espírito jovem e distinto autodidacta, Augusto de Castro e Sousa, vigoroso jornalista e alma aberta a todas as ansiedades humanas, com muito apreço e amizade.
Admirar do Céu a imensidade
que
Deus
criou para nos confundir,
proclamando
a incapacidade
de jamais o sabermos definir!...

Viver a vida altiva e alegremente,
sem nada que a possa atormentar,
tendo sempre na ideia bem presente
o quanto e fugaz nela reinar!...

Amparar com carinho e nobreza
os que sofrem o peso, a dureza
duma justiça sem igualdade,

Eis a mais elevada aspiração
que pode albergar um coração
onde somente pulsa humanidade!

1/7/1966
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ARES DA PRAIA

Este Sol que me anda a entreter
Junto a um mar azul e pouco fundo,
Constitui para mim um tal prazer
Como outro não conheço neste Mundo!

De corpo quase nu e alma aberta,
num
ambiente que
tanto me seduz,
todo
o meu ser se revigora e
acerta
aos seus contactos de calor e luz.

Do mar, onde a seguir vou enfrentar
graciosa e suave ondulação,
sopra
uma aragem fresca, salutar...

E este vitalizante tratamento,
que pratico com toda a devoção,
não me
pode sair do pensamento!...

ÂNCORA, Agosto de 1966
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PAISAGEM LIMIANA

Sob o dossel de verdura bendita
da nossa encantadora marginal,
contemplo a paisagem mais bonita
que por certo existe em Portugal!

São montes altaneiros a mirar
um
rio
de beleza soberana
e uma ponte velhinha,
secular,
de linda traça com feição romana.

E todo este conjunto deslumbrante,
cheio de luz, de cor
e de
harmonia,
aguarela de sonho, dominante,

De profundo e pictórico sabor,
transcende a mais ardente fantasia

que pode imaginar algum pintor!...

16/9/7966
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FIEL AMIGO

Diz-me, querido e fiel amigo:
Que e feito da tua liberdade?
Porque
vives assim tão
escondido

como um inimigo da sociedade?

Sim, quem é que te oculta, enclausura
nos satânicos cárceres da fome,

Tu que eras , a alegria e a fartura
dos
que na vida o trabalho consome?

Ai! que se eu tivesse a permissão
(mas somente para te libertar)
de
os poder castigar sem compaixão,

Com a ideia que me anda a perseguir,
punha
os
teus carcereiros a chorar
e
o povo português a rir… a rir...

23/9/1966
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FANATISMO

Na história trágica do Mundo,
sempre tu foste todo o mal pior,
porque
não deixas que se veja a
fundo
o que a Vida em si tem de melhor...

Inimigo dos fulgores da luz
que
te dissipa a
negra escuridão,
só te alegra e muito te seduz
contrariar
a humana evolução!...

Mas eu creio que um dia há-de raiar
em que na TERRA não terá lugar

a funesta paixão que te enleia,

Quando a VERDADE, com grande pureza,
triunfar
sobre a tua
realeza,
proclamando de DEUS a livre ideia!...

28/10/1966
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CRENÇA

Perante os mistérios da vida
que os homens não sabem desvendar,
uma crença sincera, bem sentida,
pode
as almas inquietas consolar.

É que elite divino sentimento,
refúgio de
todo
o humano ser,
contém
tão
vigoroso alimento

que outro melhor não deve haver.

Mas, para que produza bom efeito,
há-de brotar do íntimo do peito
como
o perfume se evola das flores:

Silencioso, puro, sem roupagens,
procurando-se  obter
suas
vantagens
sem ruídos ou inúteis clamores.

4/11/1966
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OUTONO

Na deliciosa e rara amenidade
destas serenas tardes outonais,
 toda a poesia deste
Vale
nos
liberta das coisas materiais!

O chão é um tapete colorido
que o
cair das folhas vai tecendo,
e eu sinto-me encantado, comovido,
de tantas maravilhas que estou vendo!

Tardes de incomparáveis seduções
com poentes de cores delirantes
a mostrar-nos fantásticas
visões

E que, em sua fugaz duração,
nos arrebata
por belos instantes
como grande... inefável ilusão!...

18/11/1966
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DEUS
Ao Sr. Dr. João Henrique Alves, distinto e prestigioso advogado monçanense, com grande estima.

Eu sei que é um SER imponderável
a
quem
muito devemos adorar,
que tudo
e ouve,
imperturbável,
sem palavra alguma articular.

Sei ainda que SUA omnipotência
tudo cria e pode destroçar,
e que, com espantosa omnisciência,
segue na vida o nosso caminhar.

Mas para além de toda esta VERDADE
sinto uma enorme ansiedade
de perscrutar os mais longínquos CÉUS,

A ver se encontro o ponto culminante
donde pudesse,
ao
menos de relance,
bem melhor compreender o que é DEUS!

2/12/1966
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PRECE
A Maria do Céu e António, no dia do seu noivado.
Estou rogante a DEUS que vos proteja
nas ingratas tarefas desta vida,
onde tudo são maldades e inveja
em constante e
cruel arremetida...

Que vos dê uma crença, um IDEAL
de amor, de JUSTIÇA
e de VERDADE,
defendendo-vos contra todo o mal
que deveis combater sem piedade!...

Que do trabalho faça uma canção
a embalar-vos pela vida fora

como a mais suave e digna função,

Sob o calor de intima amizade,
que vos cumpre sentir a toda a hora
para vossa maior felicidade!

16/12/1966
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EVOCAÇÃO
A António Amorim, que há 40 anos se vem afirmando o mais representativo Limiano na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, onde goza de justificada reputação nos meios intelectuais, com a maior estima e admiração.
Alegre, bem disposto, a sorrir,
como quem vai para
uma
digressão,
jamais alguém assim eu vi partir
com tanto entusiasmo e decisão!

Animava-te uma mocidade
repleta de esperanças bem sentidas,
e uma fortaleza de vontade
que até hoje não
foram desmentidas!

Embora certa luta hajas travado
p'ra seres um Homem culto, estimado
nesse mundo de encantos e pecados,

Conseguiste, afinal, vencer; com honra,
uma bela jornada, muito longa,
mas plena de conceitos elevados!...

17/2/1967
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PÁSCOA

CELEBRANDO a vitória espantosa
do SEU martírio estóico e supremo,
a Páscoa é uma festa jubilosa

que glorifica o GRANDE NAZARENO.

Nos Templos e nas belas Catedrais,
onde se sentia o luto e a dor,
vêem-se de
novo os santos e
os vitrais
e já se entoam cânticos de amor,

Também a deslumbrante Natureza
se reveste de
folhas
e de flores
emprestando
à vida mais beleza!

Mistério de duas forças criadoras
que espalham alegrias e odores
na multidão das almas sofredoras...

12/4/1967
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QUIMERAS

Sempre meu pensamento navegou
no mar das mais sublimes fantasias,
porque nunca de
bom
grado aceitou
esta
vida de crimes e mentiras.

Todos mentem. Ninguém fala verdade.
A
hipocrisia campeia livremente,
e uma onda de ridícula vaidade
completa este quadro bem pungente.

Alarmante sintoma de loucura
que arrasta as ignaras multidões
para a
mais dolorosa desventura.

Por isso, só no mundo das quimeras
me sinto bem com suas ilusões,
vivendo a pensar em outras eras!...

21/7/1967

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CRUEL DESTINO

Por entre a multidão que caminhava
alegre e descuidada, a beira mar,
sentado num carrinho passeava

um menino que não podia andar.

De aspecto sempre triste, acabrunhado,
talvez sem esperanças no  porvir,
era um ser humano, torturado,
que não tinha razões para sorrir....

Passava-se esta cena ao fim da tarde,
sob a luz de uma linda e estranha cor
a tornar mais chocante a sua dor...

E eu, olhando o Céu e sem alarde,
roguei a DEUS, ao SEU PODER DIVINO,
que cortasse
as grilhetas ao Menino!

ÂNCORA, Agosto de 1967
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O NATAL DO SENHOR

Eu não sei se há festa mais bonitado
que esta velha festa do Natal,
em que por graça de uma luz bendita
se vive
um alegria fraternal.

Verdadeiro milagre de amor,
como outro não conheço igual,
são momentos de válido calor
a dominar na TERRA
todo o mal.

Foi para impregnar a humanidade
de maior compreensão e de bondade
que DEUS fez
vir ao MUNDO O SEU JESUS,

Anunciar a GRANDE E NOVA IDEIA
de salvar nossa mísera colmeia
com o
fulgor da SUA SANTA LUZ!

22/12/1967
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PRIMAVERA

Esta quadra tão linda, perfumante,
com que
a Natureza se
enriquece,
tem a expressividade triunfante
da beleza que assombra e enternece.

DEUSA da esperança e da doçura,
que a todos nos protege e faz sonhar,

vejo na sua irradiante formosura
UM GÉNIO IMORTAL que não tem par.

Renovando as coisas e os seres
de que afinal a vida
é t
oda feita,
são tais os seus encantos e prazeres,

Que, na embriaguez do seu esplendor,
demonstra
ser
a OBRA mais perfeita
de quantas concebeu o CRIADOR.

Maio de 1968
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IMPRESSÕES


Ao Dr. Vasco da Gama Fernandes, figura preponderante na advocacia portuguesa, com grande apreço.


Essa bela cidade de Leiria,
que de dia e de noite visitei,
surpreendeu toda a minha fantasia
nos quadros de beleza
que encontrei.

Mas, ao ver seu castelo realçado
por suave luz de efeito multicor,
senti-me confundido, emocionado,
com tão feliz ideia e tanto amor.

Só foi pena que nesta digressão
não tivesse surgido a ocasião
de O VER E TAMBÉM CUMPRIMENTAR,

Para, ao calor do meu idealismo,
lhe poder afirmar, sem fanatismo,
O muito que agrada O SEU PENSAR.

Junho de 1968
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IN FINE

A memória do incomparável Januário Barbeitos, querido e saudoso Amigo, que a morte surpreendeu a veranear nesta deliciosa praia, com a mais profunda mágoa.

Foi nesta calma praia que o conheci,
lá vão alguns anos decorridos,
e
dos diálogos que eu então lhe ouvi,
ficaram encantados meus sentidos,

Espírito sensível, elevado,
dominando as fontes do saber,
era um defensor apaixonado
de tudo que visasse o bem-fazer.

Alarmados com tanta devoção,
os deuses, poderosos como são,
resolveram com Ele conviver…

E a Parca, implacável, de repente,
executou a sentença friamente,
deixando muitas almas a sofrer!...

ÂNCORA, Agosto de 1968
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FELIZ MIRAGEM
À memória do saudoso Américo Carneiro, espírito culto, invulgar Professor de Português e Latim e democrata de uma fé, com a mais viva admiração.

Quando há dias junto ao Lima passeava,
meditando
em coisas do passado;
pareceu-me que
ao longe caminhava
Um VULTO pela morte já levado.

Nesta terra onde a luz o viu nascer,
e nunca
se cansou de admirar,
foi GRANDE, muito GRANDE no SABER,
na BONDADE e no modo de PENSAR.

Sem lhe ser favorável o destino,
que num acto de louco desatino
lhe transformou a vida num calvário,

Foi com inquebrantável optimismo
que batalhou
por um idealismo
de profundo sentido humanitário.

Setembro de 1968
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LIBERDADE

Força que empolga as almas torturadas
pelo peso brutal de infame cruz,

não há violências por mais exageradas
que ocultem
o fulgor da sua luz.

Tiranos, tiranetas e quejandos,
que a avidez do mando estonteia,
Só ELA impede seus crimes e desmandos
de serem praticados
em cadeia...

Nobre causa da nossa simpatia,
que sempre defendemos com paixão,
cremos no despontar daquele dia

que num humano gesto de grandeza,
há-de operar o fim da escravidão,
inundando
o Mundo de beleza!

Fevereiro de 1969
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CONCEITOS

INTEGRADO na frente de batalha
que o liberta e lhe dá cidadania,
muito admiro
ohomem
que trabalha
pela conquista desta regalia.

Que na ânsia de muito aprender
para consolidar sua cultura,

sacrifica o descanso ao prazer
de uma intensa e válida leitura.

Que num dignificante inconformismo
perante as
injustiças
sociais,
enfrenta,
sem receio ou servilismo,

seus míseros faustores que, a toda a hora,
insensíveis aos grandes ideais,
são piores que a BOCETA DE PANDORA!

Outubro de 1969
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VIDAS SEM MÉRITO

RADICADOS no mundo da inacção,
com diálogos estéreis
de
permeio,
há homens SEM
PUDOR, SEM CORAÇÃO,
para quem a vida é suor alheio,

Parasitas do corpo social,
que atacam sem dó nem piedade,
não há chaga corrosiva ou pior mal
que mais afecte a pobre humanidade.

Como TABUS divinamente eleitos,
nunca se julgam fartos, satisfeitos,
Por muito que a VIDA lhes sorria…

Tristes símbolos de épocas passadas,
que
só o
dealbar de novas madrugadas
pode afastar da
nossa companhia…

Dezembro de 1969
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SENTIDAMENTE

À memória do bondoso e chorado Amigo de sempre, Manuel Alves de Araújo, que a Morte cruelmente fulminou, com a mais viva saudade.

NESTE ambiente que nada nos desperta,
e onde
só há ambições
e malquerenças,
FOSTE
uma
ALMA, sempre em luta aberta,
contra o
mal e a dor dos sociais doenças.

Por isso a multidão silenciosa,
que caminhava atrás do TEU CAIXÃO,
era uma cena triste, dolorosa,
a prantear
UM HOMEM QUE FOI BOM!

Bondade NATURAL, sem COLORIDOS,
emanando de um GRANDE CORAÇÃO
em proveito
dos pobres... dos vencidos!

E foi por tão sentido BEM-FAZER
que
todos nos tomamos de emoção
sem nossa dor podermos esconder…

Janeiro de 1970
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CONCEITOS

A João Augusto de Almeida e esposa, D. Fernanda de Faria, bondoso e simpático casal, com todo o apreço.

COMO é triste que possa haver alguém,
nas efémeras passagens desta vida,
que não tente alcançar uma guarida
onde somente BRILHE A LUZ DO BEM.

Que em lugar deste belo ideal
se cultivem anseios malfazejos,
despertando com infrenes desejos
as FORCAS DEMONÍACAS DO MAL,

Nestas lucubrações em que me perco,
e que tão caras são ao meu sentir,
SEI QUE ESTE PENSAMENTO ESTÁ CERTO.

Embora não me restem ilusões
de alguma vez ainda o ver cumprir
POR TANTOS E MALDOSOS CORAÇÕES.

Novembro de 1970
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NO MUNDO DAS IDEIAS

DA varanda das minhas fantasias
onde me entrego a longos devaneios,
vejo o ruir daquelas velharias
que estancavam no HOMEM SEUS ANSEIOS.

Sem asas para voar e compreender
as justas ambições libertadoras,
todo o historial do seu viver
é das ODISSEIAS MAIS COMOVEDORAS.

Tal como PROMETEU AGRILHOADO,
que HÉRCULES resgatou de ATROZ SOFRER,
assim VIVIA O HOMEM DO PASSADO.

Mas hoje já exalta com calor
o moderno sentido de UM PODER
que difunde MAIS LUZ E MAIS AMOR.

Novembro de 1970
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FESTA DO NATAL

VEM aí o Pai Natal
com sua barbinhas Brancas
trazendo, sem igual,
Para nós lindas lembranças.

Vou enfeitar com as minhas
um pinheirinho jeitoso,
todo cheio de luzinhas
e gosto muito amoroso.

Mas o Menino-Jesus
melhor prenda nos vai dar:
uma mensagem de luz
que nos há-de deslumbrar.

Porque já sinto o prazer
deste consolo Divino,
um presépio vou fazer
em louvor do Deus-Menino

Hossanas cantemos pois
Na sagração do Natal,
benvindos sejam os Dois
Nesta festa Universal.

Dezembro de 1970
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INCONFORMISMO

Ao Dr. António Mota Vieira, espírito desempoeirado e profundamente humano com a maior estima e admiração.

SATURADO de ambientes agitados
pelo ruído de conversas triviais,
prefiro andar sozinho nos pinhais
a meditar na dos deserdados.

Vejo-os então a subir uma montanha
empurrando de SÍSIFO O ROCHEDO,
num sacrifício incrível, de pôr medo,
como ainda não se viu maior façanha.

E mil vezes tê-lo-ão de repetir,
enquanto não puderem destruir
O PENEDO FATAL QUE OS LANCEIA,

Lutando contra a crueza de um destino
que, por ser IMORAL, ANTIDIVINO,
bem merece os ABISMOS DA TARPEIA.

Janeiro de 1971
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O VELHO CARNAVAL

ERAM três grandes dias, sem tristeza.
pletóricos de cor e de alegria,
em que a genuína graça portuguesa
dava largas à sua fantasia!...

Só uma vez por ano é que A GENTE O VIA,
nesses tempos que há muito já lá vão,
e que hoje, ao evocar sua folia,
não o fazemos sem algo de emoção…

Pena foi que o deixassem fenecer
para das próprias cinzas renascer
UM CARNAVAL CONTÍNUO, IMPOSTOR,

Dando-nos multidões de mascarados,
com seus trajes grotescos, deformados,
ofensivas das regras do pudor…

Fevereiro de 1971
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EFÉMERAS GRANDEZAS

Ò homens que andais fanatizados
por conceitos de efémeras grandezas,
não passais afinal de transviados
do caminho das VÁLIDAS CERTEZAS.

GRANDEZAS são aquelas que resultam
de um trabalho intenso, criador,
que facilite a todos quantos lutam
a afirmação cabal do seu valor.

Na loucura das vossas pretensões
existem catastróficas visões
que o MUNDO CONDENA E REPUDIA…

É que a vida só tem seu valimento
se for a expressão de um sentimento
derramando VIRTUDE E HARMONIA.

Abril de 1971
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ALMAS SEM LUZ

PEQUENAS, rastejantes, sem grandeza,
dominadas por certas veleidades,
há almas TÃO DESPIDAS DE BELEZA
como as rosas após as tempestades.

Produtos de um ambiente doentio,
onde só o CONSAGRADO TEM VALOR,
seu mundo interior ANDA VAZIO
de tudo o que é NOBRE E CRIADOR.

Sempre alheias ao clamor que as rodeia,
apenas querem ter a BOLSA CHEIA
ouvindo o tilintar do SEU METAL...

Talvez que na FUNÇÃO MANDIBULAR,
em que CONCENTRAM todo o seu pensar,
esteja UMA DAS CAUSAS DESTE MAL.

Novembro de 1971
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IDEALISMO

Ao Dr. Vasco da Gama Fernandes, distinto escritor, famoso causídico e um dos mais ardentes paladinos das sagradas causas da JUSTIÇA e da LIBERDADE, com a maior admiração.

A FESTA com que o POVO DE LEIRIA
quis confirmar-lhe A SUA GRATIDÃO,
demonstrou-nos a enorme simpatia
de que goza O SEU BELO CORAÇÃO.

Nesta simples e estrófica pobreza,
também nós o queremos saudar,
porque sua acção ATINGE TAL GRANDEZA
que não e fácil poder-se ULTRAPASSAR.

Doutrinador constante, sem enfado,
visando o ideal do HOMEM LIBERTADO,
nada o perturba e FAZ ESMORECER!

Bem haja da BOA GENTE PORTUGUESA
QUEM, com tanta elegância e firmeza,
somente tem CUMPRIDO O SEU DEVER!

Novembro de 1971
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FRATERNIDADE UNIVERSAL

Já quase dois mil anos vão passados
que Jesus difundiu esta doutrina,
sem que até hoje, por nossos pecados,
fosse adoptada como Lei Divina.

Síntese de uma ideia luminosa
pela qual o Senhor muito sofreu.
sua verdade e tão pura e generosa
como outra jamais se conheceu.

Comprovada nas Festas do Natal,
pena e que esta doutrina social
não predomine sempre sobre a terra.

Seria a forma de o mundo se enquadrar
nas regras de um constante bem-estar
pelo sentido humano que ela encerra.

Dezembro de 1971
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DESABAFOS

ORA chorando a dor, ora sorrindo,
das cenas que contemplo a cada passo,
pelas encostas da vida vou subindo
levando as ilusões pelo meu braço.

São elas que estimulam meus intentos
de não tergiversar nesta jornada,
enfrentando-a com fé, sem desalentos,
por mais árdua que seja a escalada.

E assim eu vou andando e vou vendo
tudo quanto se passa e vai fazendo
neste mundo de estranhas concepções.

Em que a cupidez e a maldade,
de mistura com falsa santidade,
revoltam as mais puras intenções.

Maio de 1972