sábado, 12 de março de 2011

Homens e Ideias

Parte 1


______________________________________________________

NOTA EXPLICATIVA
Mais por causa daquelas pessoas que, não sendo leitores habituais do prestigioso semanário local «Cardeal Saraiva», desconhecem nossa posição ideológica, do que por motivos de ordem comercial ou de vanglória, foi que tomamos a iniciativa de reunir neste pequeno volume todas as produções literárias que ao longo do tempo fomos elaborando e que o referido jornal muito nos sensibilizou inserindo-as nas suas honradas páginas.
Trata-se de dois temas de carácter religioso, biografias de algumas das mais eminentes figuras limianas e de umas dezenas de sonetos e outro género de poesia, a maioria dos quais viu a luz da publicidade numa época em que era muito perigoso fazê-lo, dada a falta de liberdade que então se verificava, o que tanto basta para satisfação do nosso espírito que nunca silenciou seu modo de pensar.
É natural que se estranhe não termos conseguido que alguém, com marcada projecção literária, fizesse a introdução deste livro; mas a verdade é que dispensamos tal colaboração por entendermos que ou ele se impõe por seus méritos próprios, se os tem, ou, em caso contrário, não seria o seu prefaciador, mesmo talentoso que fosse, que supriria as suas deficiências.
Por isso está feita a apresentação.
Resta-nos apenas uma palavra de infinda saudade para a memória daquele superior espírito que se chamou Joaquim Manuel de Lima (Joaquim Santeiro), mestre inconfundível da Arte de entalhar, pela forma inteligente como nos orientou na obtenção dos conhecimentos dos conhecimentos que possuímos, conquistados através duma perseverante leitura das obras dos maiores filósofos e escritores universais de que este livro é um dos frutos da sua assimilação.

Ponte de Lima, Fevereiro de 1976
O AUTOR
______________________________________________________


DEDICATÓRIA
A minha mulher, Albertina Pereira de Castro, admirável companheira de mais de meio século de trabalhos e constantes preocupações, sempre suportados com um saudável optimismo; a minhas queridas filhas, Maria da Conceição, Maria Margarida, Maria Fernanda e Maria da Céu Castro Marinho, que mais amigas dos pais outras não pode haver; e finalmente a meus simpáticos netos, Manuel Fernando Marinho Felgueiras Painhas e José Aníbal Castro Marinho Soares Gomes, jovens estudantes, que espero venham a ser, com a mais viva determinação, uns verdadeiros cidadãos nos campos da dignidade, do trabalho e da luta contra todas as injustiças sociais, de pés bem firmes na terra mas sem nunca deixarem de contemplar o infinito dos céus para melhor compreenderem a vastidão de todas as misérias humanas e o nada das coisas perecíveis, dedico, com todo o carinho, a publicação deste livro.

Ponte de Lima, Fevereiro de 1976
______________________________________________________


O PENSAMENTO SOCIAL E RELIGIOSO DE JESUS
Com o decorrer da quaresma, atravessa a Igreja Cató­lica o mais rigoroso período de meditação e abstinência que o seu dogma impõe aos fiéis, à semelhança do que fizera, durante 40 dias e 40 noites, em pleno deserto, aquele que, há perto de 2.000 anos, sofreu, resignadamente, por amor da humanidade, o suplício da Cruz e de cujas dou­trinas a mesma Igreja, obstinadamente, se diz fiel deposi­tária e intransigente defensora!
Ora, conquanto nada de novo possamos dizer sobre a alta personalidade de Jesus, nenhuma quadra como esta se nos apresenta mais propícia para divagarmos um pouco a propósito dos verdadeiros objectivos do seu apostolado, que, inconscientemente, por uns, propositadamente, por outros, tão falsamente são interpretados - circunstância que tem contribuído poderosamente para desvirtuar as puras intenções idealistas do mais «humano dos Deuses» que, através de todos os tempos, nos tem sido dado con­templar.
A história do Nazareno é sobejamente conhecida para que nos demoremos em escusados pormenores que nada interessam ao fim que temos em vista, dado que em milhares de volumes anda espalhada por uma grande paste do globo, embora, às vezes, moldada ao sabor de interesses e conve­niências das várias seitas religiosas que ciosamente lhe disputam o privilégio da verdade das suas doutrinas.
Por isso, e ainda por outros motivos, um dos quais éopouco do espaço que nos concedem neste valoroso sema­nário, limitar-nos-emos a tocar nos pontos indispensáveis ao fundamento dumas ligeiras considerações.
De entre os mais célebres homens que palmilharam este minúsculo planeta, oferecendo à humanidade sofredora, para melhoria da sua triste condição, as suas renovadoras ideias, e que o fanatismo das massas elevou à categoria de Deuses, foi, incontestavelmente, Jesus Cristo, quem mais e melhores serviços lhe prestou, pela pureza das suas inten­ções e sentimento humanitário de que eram impregnados os seus sublimes e ousados pensamentos.
À excepção de Moisés, Zoroastro e Confúcio, que, muitos séculos antes, concorreram extraordinariamente com o influxo das suas admiráveis doutrinas para humanizar e suavizar os costumes, impulsionando o avanço da civili­zação, dos restantes, aparte alguns superiores conceitos dos seus sistemas filosóficos e porque simplesmente actuaram no sentido de criar no espírito dos pobres mortais a mística na existência duma hipotética vida futura, onde, entre cânticos celestiais, deveriam gozar, eternamente, as delicias do paraíso – desinteressando-se, assim, absolutamente das necessidades inerentes à vida material - dos restantes, dizía­mos, pouco ou quási nada - tal o estado de barbárie em que vegetam - aproveitaram os povos que mais de perto sofreram a nefasta influência de tão ridículos dogmas.
Com efeito, ao contrário de alguns dos seus predeces­sores, Jesus, sobretudo na primeira fase da sua preciosa existência, não cuidou de criar uma nova religião baseada em caprichosas e doentias abstracções, mas tão-somente reformar os costumes duma época em que o povo jazia na mais desumana miséria, com manifesto desprezo e indi­ferença das classes dominantes, que, embriagadas pela supe­rioridade da sua condição económica e social, se entregavam, doidamente, ao mais completo «deboche» que a história regista!
Para isso, não precisou buscar apoio nos meios aristocráticos, de cujos absurdos privilégios era um intransigente adversário mas exclusivamente nas classes mais humildes, onde lançou a luminosa semente dos seus elevados ideais e recrutou sinceros e entusiastas colaboradores, sem neces­sidade de usar da sofística farisaica, mas unicamente de encantadoras e simples parábolas, nas quais sintetizava, duma forma clara e desassombrada, os mais puros anseios - que acalentava no seu amorosíssimo coração.
Porém, Jesus não se limitou a querer estabelecer entre os homens o divino preceito da igualdade, para que a justiça social fosse distribuída equitativamente por todos. Foi muito mais longe a sua benéfica acção. Constatando que um dos principais factores que alimentava a série -de tre­mendas injustiças e imoralidades que então - como hoje - campeavam desenfreadamente, era, sem dúvida, a forma mercantilista e hipócrita, como nos templos se praticava o culto do Senhor, - procurou, também, purificar as cons­ciências, exautorando as teatrais espectaculosidades que, caracterizavam o rito judaico, na firme convicção de que a felicidade humana não poderia brotar de tão inúteis como humilhantes exteriorizações religiosas.
Assim, dizia: «E quando orares não imites os hipó­critas, que folgam de fazer oração de pé nas sinagogas e nos cantos das praças para que todos os vejam. Digo, com verdade, que eles recebem a sua recompensa. E a ti digo eu que quando quiseres orar, entres no teu gabinete e, depois de fechar a porta, ores a teu Pai; que está oculto; e teu Pai que na profundidade do segredo, te atenderá. E quando orares não faças largos discursos como os pagãos que ima­ginam que devem ser atendidos à força de palavras. Deus, teu Pai, sabe de que tens necessidade, antes que alguma coisa lhe peças».
Quer dizer: que cada um adorasse Deus no íntimo da sua consciência, sem qualquer espécie de ostentação a empanar o brilho de tão divino acto, o que sempre constituiu a preocupação de quantos afivelam a máscara da crença, com o intuito de iludir a boa-fé das almas simples, - eis o transcendente pensamento religioso de Jesus.
Mas, se nos domínios do espiritual Ele concebeu o mais perfeito ideário que o pensamento humano dificil­mente poderá exceder, também no campo das realidades materiais foi o verdadeiro fundador da religião da Humanidade, quando, numa hora de divina inspiração, proferiu o consolador preceito - «amai-vos uns aos outros» - expressão que só por si, se tantos motivos não houvesse, bastaria para o imortalizar, apontando-o à posteridade como o Homem que mais bondosa e profundamente tentou a reforma social nas bases duma autêntica fraternidade.
Efectivamente, a meiga e delicada figura de Jesus, seja qual for o aspecto por que a encaremos, realça-se duma beleza e grandiosidade incomparáveis! E se as suas moralizadoras e inexcedíveis doutrinas, que tão ardentemente propagandeou e defendeu e por elas estoicamente soube morrer, ainda não produziram totalmente os benefícios que o seu belo espírito tanto ansiava, apesar de encerrarem, indiscutivelmente, o gérmen da verdadeira felicidade, isso se deve apenas à maldade e ignorância dos homens e não ao comezinho e interesseiro pretexto, a cada passo invocado como argumento de inabalável resistência, da impraticabilidade dos seus salutares princípios.
Bem sabemos que os povos, por maior que seja o esforço dos seus orientadores, jamais atingirão o grau de perfectibilidade que a nossa fantasia arquitecta e gostosamente desejaria ver realizado. Contudo cremos, inteiramente, na possibilidade do seu aperfeiçoamento, pelo menos até ao ponto em que as questões económicas e espirituais, que sempre foram a causa de discórdia das gentes, possam ser resolvidas, pacífica e humanamente, à luz esclarecedora da razão e da inteligência e não pelos bárbaros processos da violência que sempre constituíram o apanágio de raças inferiores.
De resto, porque a vida e o sacrifício de Jesus são o mais extraordinário exemplo de quanto pode a vontade humana no sentido de bem-querer, estamos certos de que hoje como ontem, amanhã como sempre, a essência dos princípios que Ele proclamou na febre entusiástica da primeira fase da sua preciosa existência, há-de ser; eternamente, o facho luminoso que guiará a humanidade no caminho das suas mais nobres e justas reivindicações.

26-3-1936
______________________________________________________

JOAQUIM MANUEL DE LIMA
Num dos tortuosos caminhos que conduzem ao lugar do Antepaço esconde-se uma velha casa que, na sua humilde simplicidade, abriga um dos maiores artistas da nossa terra.
Vulgarizou-se o seu nome de «Santeiro», e assim entre nós é conhecido Joaquim Manuel Lima. Porque é curiosa a história da sua vida, como curiosa é a sua típica figura, merece que dela nos ocupemos, mormente para revelar aos novos como este homem, sem possuir outros recursos além de uma tendência congénita para as artes e uma inquebrantável força de vontade, conseguiu distinguir-se, elevando seus méritos até o ponto de ser considerado, não só nestas redondezas; como até na própria capital onde a sua actuação se fez sentir durante largos anos, como artista de requintada sensibilidade.
Descendente de uma modesta mas honrada família, este nosso querido conterrâneo, quando ainda jovem, revelara já apreciáveis possibilidades para as artes, executando trabalhos de escultura sacra em que demonstrara, de forma indiscutível, estar-se na presença de uma esperançosa vocação, pois algumas das suas imagens, não só pelo rigor da forma como pela beleza de expressão, foram classificadas como realizações de grande valor artístico.
Um belo dia, este moço artista, que na arte de entalhar também já tinha evidenciado suas invulgares aptidões, meditando sobre os sérios problemas da vida, verificou que o seu futuro estava irremediavelmente comprometido, se não procurasse outro meio que lhe proporcionasse melhor ensejo ao aperfeiçoamento de seus dotes, cujas primícias se manifestavam tão acalentadoramente, evitando, desta sorte, que eles cristalizassem, transformando-se num trivial imitador das criações alheias.
Com este intuito, dirige-se para Lisboa, em busca do ambiente próprio que lhe facilitasse a realização deste ideal, tendo-se-lhe ali deparado, providencialmente, uma oficina artística, cujo mestre, recebendo-o carinhosamente, e depois de ter trocado com ele impressões sobre a sua capacidade profissional, o toma ao seu serviço, ordenando-lhe, para comprovar a sua qualidade e debaixo da sua orientação, a manufactura de diversas trabalhos estilizadas - o que o jovem artista executa com admirável proficiência e destreza, numa caprichosa demonstração das suas largas possibilidades artísticas.
Na verdade - dizia o seu mestre - estamos na presença de uma prometedora revelação, de que muito temos a esperar. E não se enganara em seus vaticínios, por isso que, decorrido mais algum tempo, durante o qual o moço artista continua a evidenciar os seus magníficos recursos em primorosas obras de arte que deixavam transparecer um constante aperfeiçoamento da sua inclinação artística, - ele havia de sentir o prazer espiritual de ser convidado a assumir a direcção da oficina, num justo reconhecimento das suas excepcionais qualidades para as coisas de arte. Tão honrosa como desvanecedora oferta, se bem que cheia de responsabilidades, mas que o artista rejeitava, não podia deslumbrar-lhe o espírito, ofuscando-lhe a clara noção que possuía das dificuldades do seu mester.
É que ele sabia muito bem - mau grado a sua insuficiente instrução - que nos domínios da arte só conseguem impor a sua personalidade aqueles que, dotados de uma natural propensão, aliam a esta a indispensável cultura que complete a sua formação artística sem o que se torna impossível resolver, dentro dos cânones estabelecidos, os problemas de vária ordem que surgem na execução de quase todos as trabalhos, onde as dificuldades se verificam a cada passo, até mesmo no delinear dos mais insignificantes motivos.
E porque tão criteriosamente assim o entendia, e na verdade assim é, ei-lo, fora das horas do seu imenso labor, envolvido numa tremenda luta para a conquista dos conhecimentos, que tanta falta lhe faziam a um consciente e cabal desempenho da sua profissão, visitando, sempre que possível, todos os museus e monumentos de arte, num fervoroso culto de admiração pelos trabalhos dos grandes mestres, que observava e estudava com, manifesto interesse, ao mesmo tempo que se dedicava, com afinco, à leitura de tudo que pudesse concorrer para cultivo do seu estranho espírito, tão rico de dons naturais como falho de ilustração, conseguindo, deste jeito, realizar uma auto-preparação que, longe de ser completa, foi, todavia, mais que suficiente para o definir não só coma artista de vastos recursos, mas também para o enriquecer com uma apreciável cultura, que muito o dignifica, formando-lhe um nobilíssimo carácter, pletórico de nobres sentimentos e elevados ideais!
Ora só depois de ter terminado esta fase da sua vida - que ele saudosamente evoca coma a mais interessante de todas - é que o nosso artista reconhece estar em boa forma para tomar novo rumo, abrindo, então, no Campo de Santa Clara, da referida cidade, uma oficina, onde, dando largas aos seus arrojados devaneios, apresenta obras de grande vulto, que vão desde a gravura e escultura até ao rico mobi­liário artístico de todas as feições, e que embora não lhe trouxesse uma completa, independência económica, granjeou-lhe, pelo menos, uma larga clientela de escol, que num ritmo de crescente empenho procurava adquirir todas as suas valiosas produções na consoladora certeza de que nelas se espelhava a marca de um inconfundível artista.
Porém, o seu irrequieto espírito; ardendo em constantes anseios, denunciava uma permanente rebeldia contra todas as situações que lhe coarctassem a plena liberdade de movimentos, não o deixando; por isso; fixar-se, por muito tempo; em resoluções de carácter permanente.
Nesta ordem de ideias e confiado apenas no seu muito saber profissional, cuja objectivação não receava efectuar onde quer que isso lhe fosse exigido, resolve ausentar-se da Pátria, sem rumo certo, com o propósito de fazer temporadas de trabalho nas principais cidades do Mundo, num ardente desejo de conhecer, deste modo, as maravilhas de arte que o génio humano tem espalhado sobre a terra, e de cujo feito resultaria, sem dúvida, para o seu insatisfeito espírito, a obtenção de valiosíssimos conhecimentos que muito haviam de reflectir-se em suas futuras realizações artísticas.
Infelizmente, e por ironia do destino, quando começava a ordenar a sua vida para poder iniciar, «qual canastrel vagabundo», essa interessante e aventurosa caminhada, eis que é surpreendido por uma grave enfermidade, que o força a desistir do seu audacioso plano, retirando-se para a terra natal, em demanda da saúde perdida e que lentamente recupera, integrando-se nas leis da vida sã, pela prática inteligente dos princípios naturistas, que fervorosamente abraça e que, ainda hoje, decorridos tantos anos, orientam todos os actos de seu viver simples.
Entretanto; dado que a doença o obrigara a alterar profundamente seus velhos hábitos, liquida a sua casa de Lisboa e fixa definitivamente a sua residência no lugar do Antepaço, da freguesia de Arcozelo, após o que inicia a sua interrompida actividade, auxiliado por alguns familiares, que lança na difícil vereda da sua arte, e que já hoje se afirmam profissionais de reconhecido merecimento, tendo efectuado ali trabalhos de diversas modalidades e grande valor, quer no género daqueles que se enquadram no clássico rigorismo dos estilos, quer ainda no tocante, a tantos outros, que são o produto de criações da sua surpreendente fantasia.
É, por todas estas razões que o seu nome atingiu larga retumbância, ecoando muito para além dos acanhados limites do nosso meio, e que também, por isso mesmo, a oficina do Antepaço jamais deixou de ser visitada por pessoas de vários pontos do país que a este lugar têm afluído atraídas pela justa fama de que goza este distinto mestre, considerado; sem favor, pelos seus predicados artísticos, como um dos grandes entalhadores portugueses.
Hoje, vergado ao peso dos anos, o seu labor é muito diminuto fazendo uma vida de eremita, deambulando pelas cercanias do monte de Santo Ovídio, a apascentar uma interessante cabra, que escolheu para sua inseparável compa­nheira, e na contemplação desta encantadora paisagem limiana, que ele - como afinal todos nós - muito admira, gozando, assim, um bem merecido descanso, como legítima recompensa de uma longa vida de valioso, honesto e exaustivo trabalho.
Aqui fica, pois, pálida e resumidamente traçada, a biografia do excepcional artista limiano - Joaquim Manuel Lima. O êxito do seu dignificador esforço, obtido a golpes de audácia e de talento contra todas as adversidades, conquistou a nossa admiração e respeito.
Finalmente, salientemos ainda, o quanto ele tem concorrido, através dos prodígios da sua arte, para elevar e divulgar o nome da nossa linda terra, e facilmente concluiremos que muito mais a teria engrandecido se, porventura, durante a sua juventude, a sociedade tivesse cuidado, como lhe competia, da sua educação artística, num completo aproveitamento da vocação com que a natureza o fadara, o que - disso estamos certos, pelo que conhecemos das suas intrínsecas virtudes - o conduziria às culminâncias da consagração, como um raro e completo artista das artes decorativas.

Junho 1950
______________________________________________________


ANTÓNIO MIMOSO
Se o falecimento da maioria das pessoas não é assinalado no seu meio como acontecimento de grande vulto, por isso que toda a sua acção se canalizou num sentido restritamente familiar, vivendo só para os seus e para eles trabalhando dentro de um espírito de estreito exclusivismo, o mesmo não sucede com aquelas para quem a infelicidade dos seus semelhantes lhes serve de motivo para exteriorizarem seus sentimentos benfazejos, concretizando-os na suavização de suas agruras num autêntico apostolado de religião de humanidade.
As primeiras, depressa as cobre o manto frio do esquecimento, mesmo que se tentem todos os esforços para aponta-las à posteridade como possuidoras de virtudes de que o Mundo não deu conta; as segundas, porque choraram suas tristezas e viveram suas alegrias, solidarizando-se, desta forma, com o sentir alheio, cujos infortúnios, indistintamente, diligenciaram atenuar tanto quanto lhes fora possível, transcendendo assim a vulgaridade dos mortais pelo exemplo de uma vida devotada ao bem comum, - essas, sim, essas vivem e viverão na alma popular, porque só o povo sabe consagrar espontaneamente e com legitimidade aqueles que o merecem, evocando-os a todo o momento para estímulo das gentes.
Assim, e dentro desta ordem de ideias, vimos hoje recordar, com saudade e emoção, na passagem do primeiro aniversário do seu falecimento, a figura extraordinária de António Mimoso. E dizemos com saudade e emoção, porque, na verdade, o falecimento deste varão ilustre, um dos últimos abencerragens da mais genuína fidalguia limiana, constituiu uma perda irreparável, para toda a nossa região, onde marcou, sem falsos preconceitos e desmedidas ambições, uma posição de invulgar destaque, afirmando-se, através de toda a sua vida, um Homem de valiosíssimo préstimo social.
Com efeito, António Mimoso, o gentilíssimo e acolhedor fidalgo da Casa de Sá, não era positivamente um destes homens que passam a vida, qual Narciso da lenda, contemplando a sua figura de ricanho, numa constante exaltação de pergaminhos e virtudes que eles reconhecem, com a mais absoluta indiferença por tudo e por todos, como se, porventura, tais propósitos, de reflexo negativo na vida social moderna, fossem o bastante para os impor ao respeito e consideração geral da grei.
Não. Muito ao contrário, sem fazer alarde dos seus maiores, a cujos méritos poderia referir-se orgulhosamente a todas as horas e instantes, António Mimoso soube viver a vida com simplicidade e alegria, na constância de uma comprazível sociabilidade, rindo-se espectaculosamente dos homens e das coisas que conhecia como poucos, mas em que o delírio do seu ruidoso viver lhe ofuscasse a noção dos deveres para com a sociedade, e que, de modo excepcional, consubstanciou nos mais variados actos de protecção, generosidade e filantropia.
Aquele admirável conceito de Renan, que lemos algures, e que nos diz que em arte e moral o que é mister é fazer porque o dizer não conta, teve em António Mimoso um fervoroso culto, porquanto desperdiçou grande parte da sua vida em práticas meritórias a favor de gregos e troianos, na sacrossanta missão de bem fazer, certo de que, depois da inteligência, uma das virtudes que mais podem dignificar o homem, elevando-o no conceito social, é a bondade.
Efectivamente, quantas e quantas vezes António Mimoso foi, por assim dizer, - permita-se a expressão - o Senhor dos Aflitos a que tantos se agarraram, desesperadamente, implorando a sua protecção e generosidade para os reveses que os surpreenderam na vida, na consoladora esperança de que o seu coração, sempre transbordante de sentimentos generosos jamais os abandonaria em tão doloroso transe, deixando-os soçobrar à mingua de um auxílio que lhes restituísse a alegria de viver. E, na verdade, não se iludiam quantos assim pensavam e lhe batiam a porta acossados pelas inclemências do destino, pois, para António Mimoso, os deveres de solidariedade humana não constituíam uma expressão sem sentido, mas antes um imperativo de, consciência que o levava a atender todos os que solicitavam o seu préstimo, sem, em troca, lhes exigir, como a cada passo se verifica, a prática de actos menos consentâneos com a sua dignidade.
Amigo incomparável, com quem se podia contar nas mais duras contingências da vida, António Mimoso estava sempre presente, com o seu acalentador abraço, junto daqueles que mais estimava e que a infelicidade perseguira com incrível desamor, - abraço que não significava um acto de mero formalismo, mas a certeza de um amparo que talvez dissipasse para sempre as nuvens com que o destino lhes toldara o sol de uma existência feliz.
Foi este, sem dúvida, um dos tragos mais salientes de toda a sua vida e que muito concorreu para tomar o seu nome quase lendário, como acertadamente já alguém escreveu.  
Mas não fica por aqui a demonstração da sua inconfundível personalidade.
Nos domínios da política local, onde o seu nome atingiu larga retumbância pelo prestígio social de que gozava, também a sua acção foi extremamente benéfica, dada a maneira sensata e conciliatória, sem prepotências irritantes; como sempre se conduziu no exercício dos cargos que lhe foram confiados e de que não se aproveitou para obter o mais insignificante benefício pessoal, dando-nos assim um nobre exemplo da mais inconcussa honestidade política. Pode até dizer-se, sem receio de desmentido, que gastou parte dos seus rendimentos próprios com a política, simplesmente no intuito de poder servir amigos, alguns dos quais conseguiu elevar a posições invejáveis.
Homem inteligente, simples, afável e profundamente bom, a todos falando e cumprimentando sem aquelas ridículas afectações que servem para denunciar a pequenez dos homens; cavaqueador admirável em que não sabemos mais que apreciar se a, graça dos seus ditos sempre oportunos e duma irresistível comunicabilidade, se a elegância e distinção de suas maneiras, - António Mimoso conquistou com este conjunto de invulgares predicados uma aura de tal grandeza e popularidade que o consagrou, indiscutivelmente, como uma das figuras mais preponderantes de todas estas redondezas.
Teve defeitos? Sem dúvida. Mas façamos-lhe a justiça de reconhecer que jamais pretendeu ocultá-los com a vergonhosa máscara da hipocrisia, apresentando-se sempre tal qual era, igual a si mesmo, no pleno convencimento de que, sendo os defeitos uma das condições da natureza humana, Ele não poderia constituir, como de facto não constituiu, aquela sublime excepção que somente é apanágio das almas superiores.
De resto, as notáveis virtudes que iluminaram o caminho da sua preciosa existência e que se traduziram -repetimos- nos mais variados actos de protecção, generosidade, e filantropia, demonstram-nos, por forma inequívoca, que António Mimoso actuou na vida com largo espírito cristão, - de que nos deu uma prova assaz eloquente no seu testamento, em cujo contexto mais uma vez transparece - justo é acentuá-lo - a dignidade do seu carácter e a nobreza das suas intenções.

28-1-1954

______________________________________________________

ADELINO SAMPAIO
De todos os maus sentimentos em que, infelizmente, é fértil o coração humano, a ingratidão é dos que mais repugna a todas as consciências sãs, por traduzir, na hediondez do seu revoltante significado, a negação de um dos mais belos princípios da moral, - base em que assenta toda a orgânica das sociedades civilizadas e sem a qual a vida deixaria de ter qualquer sentido de beleza que a justificasse, pelo dramatismo que envolveria o seu natural desenrolar.
Assim, quando alguém conta no activo da sua vida um somatório de realizações que denotem ter havido da sua parte um honesto, ardente e compreensível propósito de ser útil aos seus semelhantes, e que todo o seu esforço e inteligência foram orientados no sentido da solução das mais prementes necessidades da Grei, que uma exacta noção dos deveres cívicos impõem a quantos encaram a sério os complicados problemas da existência, - justo é que o seu nome, antes ou após a sua morte, seja perpetuado, de forma bem expressiva, num preito de público reconhecimento as nobres virtudes que evidenciara e que inteiramente devotara a causa pública.
Não se proceder de harmonia com este raciocínio, isto é, deixar cair no olvido o nome desse alguém, quer seja por simples negligência ou estreiteza de vistas, quer pelo receio de se ferirem susceptibilidades doentias, e, quanto a nos, uma atitude que, dadas as nefastas consequências que dela podem derivar, merece a repulsa de todas as almas bem formadas e até o anátema de todos os deuses.
Na verdade, se «o esquecimento e o silêncio são o castigo que se inflige ao que se considera feio ou comum, na nossa travessia de vida», temos de concluir, indubitavelmente, que a lembrança e a exaltação constituem o único prémio a que têm direito os poucos que conseguem transpor o mar imenso da vulgaridade humana, assinalando a sua vida com actos de excepcional importância, materializados nos mais diversos empreendimentos de utilidade social.
Pois bem. Foi meditando nestes rudimentares conceitos dos deveres humanos e por uma natural associação de ideias, que nos recordamos, saudosamente, do Dr. Adelino Sampaio, figura proeminente de democrata, que ao progresso da nossa terra deu o melhor do seu esforço e da sua inteligência, mas cujo glorioso nome, por muito estranho que isso pareça -bem triste é dizê-lo!- continua jazendo num lamentável esquecimento, como se porventura se tratasse do mais anónimo dos mortais que ao bem público apenas tivesse emprestado a inutilidade da sua inglória existência.
Não está certo.
A acção de Adelino Sampaio, a despeito de tudo quanto se possa pensar sobre a sua incomparável obra, é um caso esporádico, que não encontra paralelo nos fastos da nossa terra.
A tarefa ingente que se propôs realizar, como presidente do nosso município, e que com tanto êxito conseguiu levar a cabo, foi de tal grandiosidade e, projecção que só um espírito de superior estofo moral e intelectual, ardendo no fogo sagrado de um puro idealismo, seria capaz de conceber e enfrentar com o denodo e perseverança que se torna mister possuir para suportar os trabalhos e contrariedades que caracterizam os grandes empreendimentos.
Enunciar o que foi a sua incessante e operosa activi­dade em todos os sectores destes domínios, de que resultaram benefícios tão variados quão proveitosos, levar-nos-ia muito longe e seria fastidioso, senão inútil, por se tratar de um acontecimento dos nossos dias, que culminou, estrondosamente, com a feliz criação da estância da Madalena -canto do cisne de toda a sua gloriosa obra- o que, por si, se tantos outros feitos não houvera cometido, seria o bastante para que seu nome tivesse jus à consagração pública.
Contudo será bom salientar que a influência de Adelino Sampaio foi como que um raio de luz que dissipou a «apagada e vil tristeza» que então entenebrecia e manipulava toda a vida local, despertando vontades que se ocultavam sob uma mórbida e chocante apatia; introduzindo novos métodos de ordem e de trabalho na administração municipal, que até ali se mostrara anquilosada em todo o seu mecanismo; tomando inteiro e completo conhecimento, até os mais pequenos pormenores, da existência dos seus valores materiais e espirituais, pelos quais lhe cumpria velar, bem como fomentar a sua expansão; promovendo a elaboração de variadíssimos projectos de obras e melhoramentos públicos que, uma vez concluídos, rapidamente transformava em palpitante realidade; despertando, enfim, no povo, que sempre procurou dignificar, um vivo e justificado interesse pela febricitante actividade camarária que a sua brilhantíssima actuação conseguira elevar a um nível jamais igualado, e de cuja marcha triunfante lhe dava perfeito e completo conhecimento através de constantes e minuciosos balancetes e relatórios, em que tudo se apresentava simples e claro como simples e clara era a sua alma diamantina, onde resplandeciam e se derramavam os mais belos sentimentos cristãos que podem aureolar um coração humano.
Neste olhar retrospectivo, parece que estamos a ver a figura de Adelino Sampaio, na sua forte compleição de gigante, logo de manhã, ainda muito cedo, indiferente às intempéries, ocorrer, pressuroso, num constante vaivém, a todos os locais onde os dinheiros públicos estivessem a ser consumidos na realização de qualquer iniciativa de ordem construtiva, na ânsia irreprimível de tudo ver e acompanhar a par e passo, simplesmente com o objectivo único de que os trabalhos em curso decorressem o melhor possível, dentro do rigor ornamental previsto, que ele organizara com aquela mestria que lhe era peculiar, - certo de que, procedendo assim, corresponderia, cabalmente, a confiança que lhe outorgaram, ao elegerem-no para tão elevado cargo.
Efectivamente, quem se debruçar sobre este passo memorável da sua vida não deixará de sentir um frémito de admiração e entusiasmo, ao verificar com foi possível a este Varão ilustre, no curto espaço de 41 meses, e dispondo apenas de escassos, recursos, realizar o milagre de uma obra que, embora não obedecendo a um plano de conjunto, foi todavia, no seu aspecto saneador e construtivo, de uma eficácia verdadeiramente notável, podendo classificar-se de autêntica epopeia todo o abnegado esforço que teve de despender para a consecução do seu completo triunfo.
Que grande, que estupenda lição nos deu este ínclito cidadão, ao dedicar-se inteiramente ao engrandecimento da nossa terra, come se fosse um seu próprio filho!
Sim, porque é preciso não esquecermos que Adelino Sampaio, não sendo nado e criado em terras limianas, podia muito bem ter sido indiferente ao clamor dos seus anseios de progresso e refugiar-se na torre de marfim de um comodismo recreador, gozando as delícias espirituais que a sua vasta e sólida cultura certamente lhe haviam de proporcionar.
Mas, felizmente, não aconteceu assim, e ainda bem.
Cônscio das responsabilidades que os seus deveres cívicos lhe impunham, e sabendo que a inteligência e a cultura só são úteis e estimadas quando postas ao serviço das grandes causas, Adelino Sampaio deixa-se embalar pela superioridade destes conceitos e, numa decisão magnífica, lança-se numa tremenda batalha em prol dos interesses da nossa terra, revelando-nos, desta feita, não só as suas inexcedíveis qualidades de administrador austero, servidas por uma energia inquebrantável, como também a sua larga visão e as possibilidades dos seus múltiplos talentos, manifestadas, exuberantemente, nas diversas apetências do seu vigoroso espírito.
Cremos não exagerar, afirmando ser impossível haver alguém que, nas circunstâncias apontadas, pudesse fazer mais e melhor.
Ora, se tudo isto é uma verdade incontestável, não será o suficiente para que Adelino, Sampaio seja credor do mais profundo culto e respeito pela sua memória? Entendemos que sim.
Por isso, na passagem da efeméride do XV aniversário do seu falecimento, e embora Adelino Sampaio continue bem vivo no coração de todos os limianos, façamos um exame de consciência e diligenciemos cumprir o nosso dever de gratidão, colocando o seu nome no Capitólio, lugar que lhe pertence por direito de conquista, porque, só assim, glorificando-o, seremos dignos de nós próprios.

17-3-1955
______________________________________________________


TEÓFILO CARNEIRO

Há homens que, pela nobreza do seu carácter e honestidade das suas intenções, actuam na vida por forma tão inteligente e humana que o seu nome dificilmente deixará de estar presente na memória das gentes, sempre que a degradação das almas e a mentira dos convencionalismos seja necessário opor o seu nobilitante exemplo de apósto­los do bem e da virtude.  
Estes homens, que são a mais expressiva antítese de todas as ambições desonestas, à medida que o tempo nos afasta da realidade da sua preciosa existência mais a sua figura se agiganta a nossos olhos, na saudosa recordação duma conduta irrepreensível, norteada pela superioridade daquela moral sem obrigação nem sanção, de que nos fala Guyau, e que bem preciso tornava generalizar-se para que a vida fosse uma evidente e alegre caminhada, digna de ser vivida, sem os atropelos e vergonhosas especulações que a desvirtuam, transformando-a num autêntico labirinto em que quase sempre se perdem todos quantos tem fome e sede de justiça.
Mas - Santo Deus - parece que o destino se compraz em contrariar as mais belas intenções humanas, arrancando prematuramente ao número dos vivos os seus melhores valores, num chocante desperdício de tão construtivos elementos, como se porventura vivêssemos num Mundo em maré alta de moralidade e não fossem precisamente esses valores que mais concorrem para o embelezamento da vida, nas suas múltiplas manifestações criadoras e moralizadoras.
Certo, não queremos com isto dizer que tais homens sejam insubstituíveis, nem tão pouco pretendemos colocá-los no pináculo inacessível dos deuses, porque isso, além do mais, seria como que um verdadeiro atentado contra a própria inteligência humana. Queremos, sim, apenas acentuar que, quando isso se verifica num meio pequeno como o nosso, onde os grandes valores morais e intelectuais vão rareando dia a dia, numa progressão assustadora, a sua falta constitui, indiscutivelmente, uma lacuna difícil de preencher, sendo uma perda irreparável.
Pois bem. O Dr. Teófilo Carneiro, incarnação perfeita dos mais nobres sentimentos e elevados ideais, foi um desses superiores espíritos a que nos vimos referindo, e que por si só, com as fulgurações dos seus invulgares talentos, sobredoirou esta encantadora região limiana, cujas belezas e tradições soube cantar como poucos, em versos de surpreendente e encantador lirismo.
Com efeito, evocar a personalidade inconfundível de Teófilo Carneiro é referir alguém que foi muitíssimo grande em todas as solicitações do seu formoso espírito e para quem a vida não se traduziu apenas num mero lapso de tempo que decorre entre o nascer e o morrer, e no qual, infelizmente, a maioria dos mortais, por ignorância, egoísmo ou cobardia, se manifesta, indiferente, numa atitude de passividade criminosa, perante todo o seu pungente drama.
Não. A inquietação da sua grande alma de idealista, sensível aos mais justos anseios humanos não podia permitir-lhe que interpretasse a vida com tão falso e pernicioso sentido, sem dignidade e beleza, mas antes como um largo campo de observação e estudo, aberto a todas as ideias generosas e emancipadoras, susceptíveis de promover as transformações conducentes à felicidade colectiva, de que havia de vir a ser, como de facto foi, um ardoroso paladino, dentro das regras da justiça e do direito.
Efectivamente, seja qual for o aspecto por que o encaremos; Teófilo Carneiro foi um Homem verdadeiramente excepcional, digno de figurar em lugar de honra na galeria das mais célebres figuras da nossa terra.
Espírito invulgar, dotado de luminosa inteligência e possuidor duma vasta e profunda cultura; poeta mimoso e conferencista notável; advogado eminente, cuja profissão honrou por forma inexcedível, elevando-a ao mais alto grau do saber e da dignidade; orador de rara eloquência e perfei­tíssima dicção; político de sólida formação moral e demo­crática, por cujos princípios sempre se bateu denodadamente, Subordinando-lhes todos os actos da sua vida pública e particular; trabalhador incansável e modelar chefe de família; bondoso, tolerante e simples, sem as grotescas veleidades que caracterizam os pseudo-intelectuais, - Teófilo Carneiro deu-nos, assim, através do poder irradiante da sua personalidade multiforme, o mais vivo exemplo do homem de acção e do aristocrata do pensamento.
Quem, como nós, teve a felicidade de conviver com esta excelsa figura da democracia, não mais poderá esquecer os momentos de inefável prazer espiritual que se viviam no ambiente acolhedor da sua alma de eleição, em que o seu verbo de oiro, quer voando pelos domínios da fantasia, quer agitando-se ao valor dos mais transcendentes problemas do pensamento humano, sempre nos deliciara com o primoroso desferir dos seus maravilhosos arroubos, do mesmo modo que nos patenteava, com claridade meridiana, o forte sentido universalista de que estavam impregnadas as suas superiores e generosas ideias, - orgulho e toda a razão de ser deste vate admirável e expoente máximo da intelectualidade limiana.
Sem dúvida, foi a coexistência destas singulares virtudes com que a natureza o distinguiu, e que o assinalou como um astro de primeira grandeza na constelação dos grandes valores morais e intelectuais, que fez de Teófilo Carneiro um dos mais queridos e estimados cidadãos que até hoje nos foi dado conhecer.
E contudo - note-se - para atingir as culminâncias da celebridade de que legitimamente gozava e continua a gozar no conceito de quantos o conheceram, bastou-lhe apenas ser um espírito compreensivo, absolutamente integrado nas mais evolutivas correntes do pensamento moderno, e ter a consciência do seu valor mental, que sempre utilizou honestamente, sem outras ambições que não fossem as inerentes aos seus invejáveis méritos, bem como dar-se conta de que a vide é bela quando tem a galvanizá-la o sopro vivificante dos grandes ideais, que Ele professou com uma fé inquebrantável e o mais rigoroso sentido de coerência ideológica.
Não se pense que ao exaltarmos a figura egrégia de Teófilo Carneiro nos move qualquer saudosismo doentio ou até mesmo algo daquele espírito de sectarismo que, amarfanhando todo o poder de raciocínio com o narcótico de uma paixão delirante, leva os homens a desviarem-se do caminho que mais convém ao seu verdadeiro destino, preci­pitando-os, quais carneiros de Panúrgio da farsa de Rabelais, nos abismos duma irremediável perdição.  
Não. Muito longe disso.
Libertos, como estamos, da nefasta influência de todos os fanatismos, fazemo-lo somente com o único e sincero propósito de evidenciar a riqueza sublime dos seus bens d'alma - herança de incomensurável valor na pobreza espi­ritual do ambiente que nos cerca - e para que o seu nobre e virtuoso exemplo de Cidadão integro sirva de estímulo para se honrar a vide talqualmente Ele a honrou, com dignidade espartana, nos seus múltiplos aspectos moral, intelectual, profissional e cívico.
* * *
Alinhadas estas pálidas e ligeiras notas biográficas, resta-nos dizer que já vai sendo tempo de se pensar a sério, mesmo muito a sério na homenagem póstuma a que este grande vulto limiano tem direito, para que seu glorioso nome «se não perca na multidão das grandes almas ignoradas».
Ora quanto a nos, essa homenagem poderia consistir numa realização bem simples e pouco dispendiosa: a colocação no lado poente de qualquer das torres que ladeiam as muralhas da vila, duma lápide com a inscrição do admirável verso com que Teófilo Carneiro termina a sua incomparável composição poética intitulada «Ponte de Lima», que, sintetizando maravilhosamente o seu sonho de enamorado das belezas da nossa terra, diz assim:

      Pintores de Portugal, ajoelhai!
      Isto é um milagre, não é cor nem tinta!
      Mas não pinteis, pintores! Orai, rezai!...
      Uma beleza destas não se pinta!
Bem sabemos que a concretização desta ideia, dada a singeleza do seu aspecto material, ficaria muito aquém do justo preito que merece a saudosa memória de Teófilo Carneiro.
Mas, ao menos, e para já, seria uma luminosa legenda a despertar a atenção dos visitantes para as nossas belezas naturais, da mesma forma que perpetuaria, na grandeza do seu significado, o nome de um dos mais belos espíritos que esta terra viu nascer, e que ao longo da sue preciosa existência, que foi uma constante apoteose, muito contribuiu não só para o engrandecimento moral e intelectual de Ponte de Lima como também para a dignificação da espécie humana.
Assim, na passagem do 6.° aniversário do seu falecimento, fazemos ardentes votos para que esta nossa sugestão seja em breve uma palpitante realidade com este ou qualquer outro dos seus lindos e inspirados versos.
Tem, pois, a palavra os inúmeros amigos e admiradores do sempre chorado e inesquecível Teófilo Carneiro.

2-8-1956

______________________________________________________


JOAQUIM «SANTEIRO»
Se a duração da vida humana fosse determinada em função da forma como melhor ou pior procedem os mortais no decorrer da sua efémera existência, isso dar-nos-ia uma grande consolação espiritual, por vermos assim premiados, com tão divina dádiva, todos quantos pautam os seus actos pelos princípios duma ética superior, onde podem florescer virtudes susceptíveis de transformar a vida num permanente bem-estar, sem as dissonantes asperezas que empanam o brilho do seu verdadeiro significado.
Mas, ao contrário dos nossos anseios, não é, assim.
A vida só se manifesta exuberante e dominadora, na plenitude de todos os seus encantos e impenetráveis mistérios nos corpos sãos em que o equilíbrio orgânico é uma evidente realidade, indiferente a sentimentalismos e conveniências sociais; e só fenece e morre; nos seres cuja resis­tência física sucumbe aos estragos de qualquer enfermidade, ou aos azares de fatais e deploráveis acidentes. Perante esta verdade inexorável, cumpre-nos o dever de salientar os que sabem honrar a vida, e contribuem de qualquer modo para que ela seja sempre mais bela e mais humana, denunciando-os à posteridade como nobilíssimo exemplo a seguir.
Ora, Joaquim Manuel de Lima, enquadra-se, precisamente, no plano dos homens deste superior quilate. Por isso, nos domínios da arte, raras vezes a nossa terra deve ter sofrido, perda tão irreparável como a que há pouco se verificou com a morte do velho simpatiquís­simo «Santeiro», apelido por que era mais conhecido, entre nós, este famoso mago na arte de entalhar.
E ao dizermos raras vezes, fazemo-lo com a cons­ciência da responsabilidade que esta afirmação contém, porquanto, este talentoso limiano, a despeito de não ter frequentado quaisquer cursos ou academias de arte e cultura, revelou-se um inexcedível Artista no seu género, bem como um autodidacta de largos e apreciáveis recursos.
Sim, aquele Homem pequenino de compleição delicada, quase que esquelética, mas dum dinamismo e audácia invulgares, em cujo peito sempre pulsara um coração repleto das mais peregrinas virtudes, e que vivia intensamente todas as angústias e inquietações que dramatizam esta pobre humanidade, era, de facto, um espírito esclarecido, de sensibilidade requintada, que se tornou numa destacada figura local com larga projecção no país, pelas maravilhosas realizações provenientes do seu portentoso temperamento artístico.
Cidadão bondosíssimo, que acertou todos os passos da sua nobre existência pelas rígidas normas duma vida sã, Joaquim «Santeiro» fez-se pelo seu próprio esforço, dominando uma arte em que os predestinados conseguem vencer todas as dificuldades dos seus cânones e adquirindo um grau de cultura que havia de permitir-lhe ventilar, com grande poder de lógica, inteligência e ponderação, alguns daqueles transcendentes problemas que aos homens superiores é dado compreender e aprofundar com a lucidez que a sua complexidade exige.
Mas, foi sobretudo como Artista incomparável que Joaquim «Santeiro» impôs a sua forte personalidade, criando à volta do seu nome a auréola duma fama jamais desmentida, que teve o condão de transformar a sua modesta oficina do Antepaço numa autêntica Meca da arte de entalhar, onde vinham pessoas das mais diversas localidades, no intuito de obter ou admirar as suas valiosas produções, nas quais se reflectia, com elevado sentido artístico; a garra inconfundível duma superior mestria.
Vê-lo em pleno labor, manejando as goivas com o à-vontade próprio dos que têm a consciência dos seus méritos, era assistir-se a evidência duma justa reputação, ao demonstrar-nos assim todas as possibilidades do seu engenho e arte, executando os mais variados e graciosos ornatos por vezes só mentalmente delineados, mas sempre de admiráveis proporções e sem se desviar das regras do estilo a que devia obedecer a delicadeza do trabalho em curso.
Na escultura sacra, na gravura, no retrato em baixo relevo, na alegoria, no mobiliário artístico, desde o estilo mais simples ao mais pomposo, em todas as modalidades, enfim, que se relacionam com esta dificílima arte, Joaquim «Santeiro» deu-nos a medida exacta da sua potencialidade criadora, porque em todas elas foi sempre o mesmo genial Artista, praticando feitos de esplendorosa beleza, - de que resultou ser considerado, sem favor, como um dos maiores entalhadores portugueses do seu tempo.
De resto, Joaquim «Santeiro» comportou-se socialmente como um verdadeiro Homem, actuando dentro da mais pura doutrina cristã, coma o testifica a sua vida exemplar, dignificada pela honra, pelo trabalho, pela modéstia, pela protecção carinhosa que dispensava aos seus semelhantes e ainda pela amizade que nutria pelos animais, sentimentos que o Artista manifestava naturalmente, sem teatrais espectaculosidades, distinguindo-se, por isso, dos que o fazem mais por injustificados desejos de vanglória do que propriamente por necessidades de ordem subjectiva.
Porém, todo este conjunto de singulares virtudes que lhe esmaltavam o espírito e enalteciam o carácter, assinalando-o como um. Artista exímio, de ideias progressivas e superior formação moral, há muito que tinham deixado de brilhar, ofuscadas pelas contrariedades com que a vida sempre nos surpreende.   
Uma espécie de exaustão vital, agravada por desgostos que o seu correcto proceder não justificava, provocou-lhe tais perturbações psíquicas que passou a detestar todo o convívio social, refugiando-se num isolamento doentio, indiferente a tudo e a todos, o que, possivelmente, muito contribuiu para abreviar o fim dos seus dias.
Desde então, deixou de ser o Joaquim «Santeiro» que todos conhecemos como Artista excepcional, democrata indefectível e naturista entusiasta, para se nos mostrar um outro homem, completamente diferente, de temperamento misantropo, sem vontade própria, e de cujo olhar parecia transparecer um impaciente desejo de se libertar da vida para mais depressa ingressar nos arcanos insondáveis da morte, talvez na sedutora esperança - quem sabe? - De encontrar o descanso e a felicidade de que era merecedor, pela grandeza da sua alma e honestidade das suas intenções.  
E assim aconteceu, infelizmente!
Com o seu decesso, a arte de entalhar, que tinha em Joaquim «Santeiro» a sua mais alta e viva expressão, perde um dos seus mais honrados e notáveis ornamentos, e Ponte de Lima um filho querido que muito a prestigiou com a magia da sua arte deslumbrante.
Assim, neste doloroso transe e como amigo e admirador dos talentos e virtudes de Joaquim «Santeiro», de quem recebemos muitos e salutares ensinamentos, não podíamos deixar de prestar-lhe esta singela e pública homenagem, desfolhando sobre o seu túmulo as flores duma profunda e imperecível saudade.

10-1-1957
______________________________________________________


NOS DOMÍNIOS DO ESPÍRITO
Nesta quadra festiva do Natal, em que o mundo cristão comemora, com projecção universal, o nascimento de Jesus, vivendo, assim um dos seus mais fecundos e felizes dias, divaguemos um pouco sobre as coisas do espírito de que tantos falam e se dizem prosélitos, mas que a norma da sua vida desmente, formalmente, na mais diabólica manifestação dum farisaísmo doentio e repugnante.
Com efeito, desde os tempos em que Deus, disfarçado em sarça-ardente, apareceu a Moisés para lhe ordenar que libertasse o seu povo da escravidão, conduzindo-o à terra Santa da Promissão, e lhe ditou, no alto do monte Sinai, entre raios e trovões, o decálogo que sintetiza uma das mais belas e elevadas concepções da moral humana, desde esses tempos, dizíamos, que se vem travando gigantesca luta no sentido de se encontrar a verdadeira doutrina por que se deviam guiar os homens no trato das suas relações sociais, transformando a vida num hossana de alegria, em constante apoteose do trabalho, da virtude e do amor.
Posteriormente, e em épocas diferentes, outros homens célebres, que também se apresentaram como enviados de Deus, desenvolveram aquelas doutrinas, aperfeiçoando-as segundo os seus conceitos religiosos ou filosóficos, sem que todavia, mau grado o esforço despendido, alcanças sem tão superior objective contribuindo no entanto muitos deles, pela grandeza das suas ideias e ardor do seu apostolado, para a suavização dos costumes de alguns povos, que, então, vegetando na barbárie, se evidenciavam pelos mais incríveis atentados contra todos os preceitos da moral e da justiça.
Dentre essa plêiade de Homens imortais, Jesus, com a sua mensagem de fraternidade universal, divulgando o culto da consciência e da unidade divina, foi, sem dúvida, o Homem-Deus que mais luz projectou no longínquo caminho que um dia conduzirá à efectivação daquele ambicionado ideal, -aspiração suprema de quantos, libertos de preconceitos e fanatismos, desejam ver a vida organizada dentro das regras duma completa harmonia, onde se assinale, vitoriosa e dominadora, a independência e valorização de toda a pessoa humana.
Jesus assim o compreendeu e proclamou, desassombradamente, sem artificialismos, na plena consciência da sue missão divina de reorganizar a sociedade nos moldes dum profundo humanismo, certo de que o seu ingente esforço, qual Hércules libertando. Prometeu das garras do abutre que lhe devorava as entranhas, havia de identificá-lo para sempre, como criador da mais bela e audaciosa mística que aos homens fora dado conhecer, e que levaria o Mundo a tomar novos rumos em busca do seu verdadeiro destino.
Sonhador duma sociedade igualitária onde a religião da humanidade florisse em toda a sua grandeza, Jesus procurou despertar nas consciências o sentimento do bem, da virtude e do amor, através de sugestivas prédicas e aforismos que traduziam, de forma clara e eloquente, todos os anseios do seu divino e imortal Espírito, incutindo-lhes novos e elevados conceitos de ordem espiritual, em que o sentido religioso, renovado pela luz vivificadora da nova fé, transparecia como refúgio consolador das almas torturadas por todos os vendavais e mistérios da vida, e não como um mero acto espectacular, sem sentido, de efeitos negativos e até por vezes mais maléficos do que os que resultariam da Boceta de Pandora de que nos fala a velha Mitologia no encantador mistério dos seus símbolos.
Tarefa incomensurável, que só um espírito predestinado para as grandes mutações do Mundo ousaria empreender, Jesus, no decurso do seu glorioso apostolado a que se entregara totalmente, proferiu máximas sublimes, exaltadoras de tudo quanto é simples, humilde e indefeso, sem contudo deixar de profligar, impiedosamente, toda a actividade religiosa e profana que se verificava no Templo, em cujo recinto fervilhava uma caterva de miseráveis fariseus, que, pela sua actuação pecaminosa e dissolvente, transformava o culto do Senhor puma prática mercantilista e hipócrita, com menosprezo absoluto por todas as mani­festações denunciadoras das mais puras e sinceras crenças.
Assim; Jesus, exautorando publicamente os fariseus, criaturas abjectas, que, infelizmente, ainda subsistem e continuam a infestar o Mundo com suas tenebrosas maquinações; sentenciou-os deste modo:
«Ai de vos fariseus hipócritas! Porque vos assemelhais a sepulcros branqueados, que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossadas e de toda a casta de podridão. Sois justos na aparência; mas no íntimo estais repletos de fingimento e de pecado!».
Que grande, que admirável serviço Jesus prestou à humanidade com esta judiciosa sentença, estigmatizando, eternamente, todos os mistificadores das mais justas e nobres causa!
Mas, se todo o processo da história de Jesus nos surpreende e domina pelo maravilhoso do seu conteúdo, o que mais nos encanta, porque nos convence, são os seus inexcedíveis conceitos sobre o que deve ser a fraternidade humana e a religião divina, definidos a propósito do enfermo encontrado abandonado na estrada de Jerico, e da pergunta que uma samaritana lhe fizera, na fonte de Jacob, sobre o local onde se devia adorar ao Senhor - conceitos geniais que nos dão a medida exacta da transcendência e universalidade do seu ideário, por cuja concre­tização os povos jamais deixarão de lutar até à consumação da vitória final.
Pois bem. A festa do Natal, consagrando o nascimento do Rabi da Galileia, tem o condão de ser uma festa diferente de todas as outras, porque as almas meditando no seu puro idealismo e por ele influenciadas, mostram-se mais fraternais e condoídas perante as necessidades alheias, oferecendo-nos assim, embora momentaneamente, a nítida imagem de como a vida poderia ser mais bela, se todos, obedecendo aos ensinamentos do divino Mestre, lhes dessem permanente guarida no coração, em vez de se servirem do seu nome e da sua doutrina para ocultar os mais baixos e inconfessáveis interesses materiais.
Bem sabemos que será difícil, senão impossível, dadas as tristes condições da natureza humana, os povos atingirem o grau de perfeição que lhes proporcione aquele mínimo de paz e felicidade a que todos tem direito; mas, também não ignoramos que, quanto maior for o número dos bem intencionados, isto é, dos que subordinam todos os seus actos aos princípios da moral que os informam, maiores serão, certamente, as possibilidades das grandes caminhadas para a conquista do bem comum.
Por isso, nesta hora conturbada que o Mundo atra­vessa, fazemos votos para que os mentores dos povos saibam encontrar na verdadeira doutrina cristã a solução para o antagonismo que os separa, repudiando, em homenagem a Jesus e à própria dignidade humana que Ele tanto exaltou, todas as prepotências, egoísmos e vaidades ilegítimas, causa próxima e remota dos dissídios que lhes tem custado rios de sangue e sacrifícios sem conta.
Teremos a felicidade de algum dia assistir à realização deste milagre?
Oxalá que sim, e que muito em breve, em todos os cantos da terra, os povos possam saudar, numa apoteótica manifestação de alegria, o raiar de um novo Mundo, onde somente domine o império da verdade e da justiça, base em que assenta toda a filosofia social e religiosa de Jesus.

9-1-1958

______________________________________________________

ANTÓNIO FEIJÓ

Apesar do panorama que os tempos decorrentes nos oferecem, patenteando-nos uma sociedade dominada por um grosseiro materialismo com todo o seu cortejo de misérias e podridões, e em que cada qual, saltando por cima de tudo e de todos, numa autêntica maratona de interesses, apenas busca conquistar as posições que melhor satisfaçam os seus desejos materiais, alheando-se completamente dos legítimos direitos dos seus semelhantes e das sublimidades de espírito que mais dignificam o homem, é consolador verificar que, felizmente, ainda existe quem não se deixe perverter por tão baixos sentimentos, reagindo contra os seus desumanos e perniciosos efeitos na virtuosa missão de esclarecer as almas de que há verdades eternas sem as quais a vida perde todo o seu melhor sentido de dignidade e beleza.
Mas, se nestes inquietos tempos de chocantes contradições e cabotinismos delirantes isto já é algo consolador, não deixa contudo de nos impressionar, o facto bem evidente de serem muito poucos aqueles que se obstinam na luta pela vitória dos verdadeiros postulados do espírito, por isso que a juventude, salvo honrosas excepções, obcecada por falsos e mistificadores idealismos, continua a marcar a sua ausência no debate das mais nobres e progressivas ideias, entregando-se total e apaixonadamente ao culto dos grandes da força e destreza, como se os ruídos provocados pelas demais manifestações do pensamento humano não merecessem o ardor da sue mocidade e a devoção da sua inteligência.
Triste sintoma este em que a juventude, perdida na encruzilhada do destino por estas e outras mirabolantes e desastrosas tentações, que parecem constituir a plena satisfação de todas as suas ansiedades, não consegue descortinar outro rumo que lhe indique a Estrada de Damasco da sua salvação, deixando-se afundar, ingloriamente, no mar morto dum desprezível anonimato, sem nos mostrar, como outrora acontecia, quais as suas inquietações perante o eterno drama da existência humana.
Ora, e justamente por estas e outras razões que não cabe aqui enumerar, denunciadoras de uma decadente mentalidade, que a campanha há tempos iniciada por Júlio de Lemos neste valoroso jornal, a propósito das comemorações do centenário do nascimento de António Feijó, não tem resultado naquele ambiente de carinho e entusiasmo próprios dos momentos que precedem as grandes manifestações colectivas a que têm direito todos quantos enriquecem e embelezam a vide com as múltiplas e deslumbrantes criações do seu génio imortal.
Estamos mesmo em crer que, se não fora a feliz iniciativa daquele admirável contista e talentoso escritor, espírito sempre jovem e atento a tudo que diz respeito a esta sue e nossa querida terra, talvez este vultuoso acontecimento deixasse de ser assinalado, perdendo-se no silêncio dum revoltante e confrangedor esquecimento como a mais banal e quotidiana ocorrência.
E, no entanto, o poeta António Feijó preenche por si toda uma época da nossa história local, cintilando com estranha e fulgurante luminosidade no firmamento dos maiores vates nacionais do seu tempo.
Com efeito, poucas são as terras que se podem orgulhar de contar entre os seus filhos mais queridos um vulto da envergadura mental de António Feijó, que, aos 22 anos, idade em que tantos vêem frustradas as suas mais caras ilusões, consegue alvoroçar os meios letrados do país com a publicação do seu primeiro livro de versos «Transfigurações», em que o poeta, influenciado pelo profundo estudo das novas verdades científicas, nos a conhecer, com grande emotividade e através da magia do seu estro, toda a gama de sentimentos que as diversas fases da sua precoce evolução filosófica lhe despertaram e que a musicalidade da sua lira soubera traduzir em estrofes de rara e impressionante beleza.
Depois, todas as suas produções constituíram um êxito completo, revelador duma exuberante inspiração, o que não podia deixar de o conduzir aos páramos da celebridade, abrindo-lhe o glorioso caminho do Parnaso, ao longo do qual, versificando os temas mais dilectos da sua feição sentimental, havia de afirmar toda a potencialidade criadora do seu rico temperamento de Artista excepcional, culminando em «Sol de Inverno», livro em cujos versos, repas­sados de encantadoras imagens e suaves harmonias, Feijó atinge a sua mais alta expressão lírica.
De resto, quem for dotado dum mínimo de sensibilidade e se der ao enlevo espiritual de se debruçar sobre a sua obra, depressa concluirá estar na presença dum poeta da mais elevada estirpe, ao sentir-se dominado pelo poder emocional que se evola dos seus maravilhosos versos, e em que este inconfundível cantor das belezas da nossa terra, numa perfeita construção estrófica e subtil concepção, exterioriza tudo quanto se passa no seu mundo subjectivo, corporizando assim, e nas mais variadas formas artísticas, todos os sentimentos que se agitam na sua alma de enamorado das musas – e que os deuses talharam para nos transportar às sublimes regiões da fantasia e do sonho.
É, pois, o centenário deste altíssimo poeta, de que traçamos umas leves impressões, que vai ser comemorado, festivamente, no próximo mês de Junho, com um programa que não deve desmentir a grandeza do homenageado e que certamente incluirá, como número principal, a realização duma conferência sobre a visa e a obra do poeta.
Se esta nossa previsão se confirmar, como é natural, ousamos sugerir que seja convidado a desempenhar tão difícil como honrosa missão de proferir essa conferência, o distinto poeta e escritor, Dr. António Ferreira, pois sem pretendermos diminuir os méritos alheios, entendemos que ninguém melhor do que tão ilustre conterrâneo nos saberá dizer, pela forma expressiva e eloquente que lhe é peculiar, o que foi, na realidade, a vida e a obra do grande e inolvidável poeta limiano.

21-5-1959
______________________________________________________