Há muitos anos que lido com Aníbal Marinho. Ele é o meu companheiro predilecto, com ele converso e troco opiniões literárias, políticas e sociais. Conheço as suas ideias generosas, a sua verticalidade e o sentido humano que empresta às coisas sérias desta vida. Homem sem medo, valendo-se da sua cultura filosófica para combater as injustiças e as ingratidões nunca vira a cara à luta, de ontem, de hoje, de sempre onde quer que ela se inicie nos seus assomos de violência e de calúnia.
Nos negros tempos do fascismo e quando Ponte de Lima era governada por tiranetes, fornecedores do ridículo de informações para Pide, Aníbal Marinho, de arma aperrada, nas colunas valorosas do «Cardeal Saraiva», nos saudosos tempos do inolvidável Cidadão Avelino Guimarães, e nunca de lacaios e subservientes, impostos por uma censura odienta, que nasceram em tempos ignominiosos e vieram para o mundo para atropelar os outros, escreveu artigos sobre a vida e obra de grandes figuras limianas, Teófilo Carneiro, António Mimoso, Joaquim Manuel de Lima, Adelino Sampaio e António Feijó, com afirmações e conceitos que nessa época desgraçada e maldita, eram o passaporte para os calabouços da criminosa polícia política de Salazar.
Aníbal Marinho bateu-se, nos tempos difíceis, com coragem e determinação, ao lado dos seus camaradas, nas trincheiras da Liberdade e da Democracia. O seu livro de agora, é a expressão desta realidade, a que mais tarde, o seu estro poético, viria a dar consistência e unir os elos da resistência às malfeitorias dos fascistas portugueses. Seus escritos foram pedras com que contribui para derrubar o poder despótico que dominou durante quarenta e oito longos anos.
Quanta vezes -e neste momento o recordo ainda com asco- fomos, eu e ele, simplesmente por amigos e Democratas, indicados aos pides que vinham a Ponte de Lima, chamados por alguém a quem a nossa e doutros camaradas presença, embaraçava. Ambos, não só fomos indicados mas também denunciados por «bufos» que eram pobres e ricos de dinheiro, nada mais, e que andam aí desprezíveis e sem qualquer importância social. Quantas vezes esses poltrões nos denunciaram como comunistas perigosos e que era preciso abater.
Aníbal marinho, dedicando a sua obra poética a Amigos e Beneméritos, a combatentes anti-fascistas (Catarina Eufémia), fez justiça e lembrou vultos inesquecíveis da terra limiana.
Ele não escondeu a amizade e o respeito que nutre pessoa válidas e defende com galhardia os generosos ideais da Democracia e da Liberdade, sublimando a coragem que foi preciso ter para resistir durante quarenta e oito anos aos torturadores fascistas que fizeram da maioria do nosso Povo um rebanho e do país uma coutada.
Há sempre alguém que diz não.
«Homens e Ideias», um livro que expressa as verdades e as ansiedades vividas em tempos de ignomínia que haveriam de fecundar o 25 de Abril, acabando com uma das mais sombrias ditaduras da História.
Augusto de Castro e Sousa, in Jornal Cardeal Saraiva de 21-5-1976
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A Propósito de ‘’Homens e Ideias’’
Com este livro, de título tão expressivo, correspondeu Aníbal Marinho plenamente ao que dele há tanto tempo esperavam, não apenas os seus amigos, como a maioria dos seus conterrâneos. E a prova do que afirmo se tira do apreço e do interesse com que foi aceito e acolhido.
Os seus já hoje numerosos leitores puderam assim verificar que a inflexibilidade da sua vida e da sua conceituação filosófica, e bem do mesmo modo a fidelidade ao seu ideário democrático não sofreu a menor distorção ou quebranto, nem sequer nos dias turvos e adversos da caça ás bruxas, que andou à solta e sem freios por dilatados anos, de sinistra e pungente memória.
É fácil, por conseguinte, avaliar a ternura com que, na qualidade de velho amigo do autor, recebi o seu livro, que li na mesma hora, - e com uma emoção que dobrava ao virar de cada página. E se tudo quanto o livro encerra me emocionou, também o meu fervor limiano crescera quando tive a consoladora certeza de que os meus conterrâneos apreciaram como lhes competia o livro «Homens e Ideias», em que Aníbal Marinho reuniu alguns dos seus mais significativos trabalhos vindos a lume neste semanário- o «Cardeal Saraiva», de preclaras tradições entre os demais jornais de província. E andou muito bem, ou não será o jornalismo apenas aquilo que aconteceu hoje e se esquece amanhã?
Esse acolhimento, quanto a mim, é bom sinal e consoladora certeza de que persistimos, hoje como sempre, enamorados de tudo que é belo e excitante, - e mantemos viva a nossa emoção diante da poesia, «que é libertação e alforria; libertação plena do espírito, alforria integral de tudo quanto afeia, amesquinha e conspurca a Humanidade: a maledicência e a mentira, a inveja e o ódio, a cobiça e a ambição», na inspirada e feliz definição de Goethe.
Para que maior tivesse sido o enlevo com que recebi o volume de «Homens e Ideias», registe-se o facto de, horas antes, remexendo velhos papéis, ter encontrado uma carta de 12 de Setembro de 1931, escrita pelo nosso saudoso e comum amigo Joaquim Manuel de Lima, em que risonhamente me confessa: «O nosso irrequieto Repórter X n.º 2, perdido de amores pelo naturismo, anda agora a tomar banhos de sol, acompanhados de muita água e ares lavados; e, a par disto, está a caminho de se transformar em palrador-mór do Reino, com toda aquela azougada roda-viva de pés e braços, gestos e frases de escacha, sorrisos de escarninho metálico. E quantas vezes falamos do nossíssimo Amorim, companheiro indefectível das nossas tardes domingueiras, em que nos entregávamos a toda a sorte de divagações, ao mesmo tempo que nos perdíamos por montes e vales, ao sabor do acaso, sem rumo nem destino».
Também, por meu lado, sempre e ainda hoje, decorrido precisamente meio século, não se me apagaram da memória essas conversas e essas digressões domingueiras, em que, não raro, o nosso então caríssimo e hoje saudosíssimo Joaquim Manuel de Lima, por obra e graça de suas aturadas leituras filosóficas, e larga experiência da vida e conhecimento dos homens, assumia a nossos olhos de mancebos inexperientes e configuração de um Platão indulgente e familiar, sobretudo ao repetir-nos a sempre recordada sentença do glorioso ateniense: - «Ditosos os Estados onde os filósofos são soberanos, e os soberanos filósofos».
«Homens e Ideias» é, sem exagero, livro para os pontelimenses guardarem e relerem nas horas de desalento – ou não encerrasse uma grande verdade esta advertência de Austin Dobson: - «Todo aquele que tentar aprender sem livros estará carregando água em cântaro rachado» (Who without books essay to learn; draw in a leaki urn).
O livro «Homens e ideias» compõe-se de inspiradas poesias e algumas biografias dos Drs. António Feijó, Adelino Ribeiro Sampaio e Teófilo Carneiro; de António Mimoso e Joaquim Manuel de Lima, cidadãos de relevo nos meios pontelimenses, e que não podem ser esquecidos, a par de muitos outros igualmente relevantes.
No dizer de Homero os mortos não se consideram mortos quando os vivos os recordam. Sempre que assim acontece, sentem-se reanimados, pois que através dos vivos se libertam do sono da morte, revivem, voltam a observar e até falam de novo, graças ao sangue fresco que, ao serem recordados, os vivos lhes transmitem; sangue de que as suas sombras se embebem e lhes permitem recuperar temporariamente a memória. Portanto, se os alimentarmos com o nosso pensamento, se nos conservarmos fiéis aos seus exemplos, conservá-los-emos vivos para sempre.
Em relação a Alain, seu mestre adorado, afirmou André Maurois; - «Sócrates não está morto, - vive em Alain». Alain não está morto – vive em nós».
Oxalá o mesmo possamos dizer em relação a tantos – e muitos foram!- dos nossos conterrâneos, além daqueles que o autor de «Homens e Ideias» distinguiu.
Cabe-nos insistir: o livro «Homens e Ideias», de que o autor sem exagero pode sentir-se ufano, fez jus ao nosso apreço, veio ajudar-nos a compreender melhor que, se o Homem dispuser de energias para transformar o seu coração numa fortaleza da Liberdade e da Democracia, jamais estas imperecíveis aspirações da humanidade, em momento algum, morderão o pó da derrota, - e que, se a Democracia for, nos dizia Renan, «um plebiscito de todos os dias»; se as Democracias se constituírem de verdade em legítimos regimes de opinião, nesta eventualidade só poderão existir e prosperar numa límpida e sonora atmosfera de debates e contraditas.
Nos regimes despóticos, absolutos e monologantes, de que tivemos amarga experiência de 28 de Maio de 1926 a 25 de Abril de 1974, nestes, a opinião é apenas aquilo que Fievée, num rasgo raro de audácia, confidenciou a Napoleão, seu senhor de baraço e cutelo: «Desconfiai, Sire! L’opinion, sous un gouvernement absolut, cést ce qu’on ne dit pas».
António Amorim, Barra da Tijuca, 29-6-1976, in Jornal Cardeal Saraiva de 23-7-1976
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DUAS VILAS IRMÃS
A Aníbal Marinho, distinto limiano autor do livro «Homens e Ideias»
NA Límia, ao pé do rio ambas nascidas,
São irmãs gémeas, e tam parecidas…
Como jóias a aflorar dum mesmo engaste,
Ou então flores sorrindo em côr numa só haste.
De um lado, a serra a verter um rio belezas;
Do outro, mirando o mar a augusta mãe das princesas
E, a uni-las os laços do lendário Lethes, que caminha
Remorejando a seus pés em rebrilhos de taínha.
Mas eis surgirem d’entre mantas de verdura,
O Vez e o Vade para, no Lima entrando com brandura,
No leito unidos afagando mais folgado espaço,
Irem três rios levar da Barca a Ponte fraterno abraço.
M. DE RIO VADE, 1977 in Jornal «O Povo da Barca»