segunda-feira, 28 de março de 2011

Homens e Ideias

Parte 3



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QUADRAS DE SÃO JOÃO

A festa mais portuguesa
de popular tradição,
não é outra com certeza
senão a de São João.

Entre odores inebriantes
e caprichosos enfeites.
São João vive uns instantes
dos mais felizes deleites.

Bailando sob o calor
de crepitantes fogueiras,
vivem esperanças de amor
as raparigas solteiras.

E é tal a sensação
que provoca seu bailar
que o próprio São João
gosta de as ver dançar.

Rapazes e raparigas.
no vosso mais lindo tom,
cantai bonitas cantigas
ao Baptista São João.

Ruidosas e animadas,
e sempre em competição,
são muito apreciadas
as marchas de São João.

Os fogos de fantasia,
queimados em profusão,
dão mais cor e alegria
às festas de São João.

As cascatas populares,
com cravos e rosmaninho,
são outros tantos altares
a louvar este Santinho.

Se todos os outros santos
fossem como São João,
tudo seriam encantos
neste mundo de opressão.

Viva pois o São João,
o Santo mais popular,
que detesta a interdição
de o povo poder bailar.

Junho de 1972
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GRANDEZA DO MAR

Ao Sr. Manuel Martins de Araújo, distinto Subdirector de Finanças deste distrito, bom e querido Amigo, com toda a simpatia.

TRANQUILO, com pequena ondulação,
reflectindo os efeitos do Sol-pôr.
O Mar, qual prodigiosa encenação.
é um manto colossal de rósea cor.

Quadro maravilhoso, indescritível,
que sempre nos atrai e enternece,
são instantes de um viver tão aprazível
como poucos p'ra nós a vida tece.

Monstro sagrado de um labor infindo,
gostamos de o ver também rugindo
batendo o litoral sem o vencer....

E que só na grandeza desta luta
demonstra bem a sua força bruta
na máxima expansão do seu poder.

ÂNCORA, Agosto de 1972
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REFLEXÕES

No campo encorajante das ideias.
onde passo meus dias mais felizes,
recordo os atropelos e as peias
com que os homens cometem seus deslizes,

Lembro-me ainda de alguns nefastos mitos
que a humanidade adora sem pensar,
entregando-se ao culto dos seus ritos
por forma que confrange e faz pasmar.

Deparo com os deuses e os génios
num dialogo profundo, transcendente.
sobre erros que subsistem há milénios!!!

Vejo uma sociedade dissoluta,
que está preocupando muita gente.
perder-se na mais péssima conduta!...

Outubro de 1972
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VISÕES DO OUTONO
Ao meu simpático neto, Manuel Marinho Felgueiras Painhas, aluno da Faculdade de Engenharia, com todo o apreço.
Lentamente ou em vagas sucessivas
que o vento impele e faz tombar.
as folhas caiem tristes, ressequidas,
num bailado deveras singular.

Erguendo.se  do chão, redopiando,
batidas pela aragem outonal.
assim se vão moendo, desgastando,
sumindo-se na luta universal.

Mas hão-de novamente ressurgir
das árvores os ramos alindando
com as folhas mais belas do porvir.

E neste renovar da natureza,
de que só Deus nas mãos tem o comando,
a vida freme em gritos de beleza!...

Novembro de 1972

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DESALENTO

Ao inesquecível António Amorim, velho querido amigo, sempre presente no nosso espírito, com a maior simpatia.

Mais um ano se foi, se dissolveu
nas brumas de um passado bem recente,
e de tudo que então aconteceu
fracas recordações tem nossa mente.

Constantes frustrações, ingentes dores,
muito poucos momentos de alegria,
uma guerra cruel, feita de horrores,
a desmentir de Deus a hegemonia.

As mesmas desmedidas ambições,
os mesmos preconceitos bolorentos,
todo um viver sem nobres intenções...

Ano sem rumo certo, assinalado
por imensos problemas e tormentos,
só com tristeza pode ser lembrado.

Janeiro de 1973
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MULHERES VÁLIDAS

A Sra. D. Fernanda de Carvalho, espírito esclarecido, com a maior estima.

Creio não me enganar se lhe disser
que, nesta linda terra limiana,
não vejo de momento outra mulher
que mais sensível seja a dor humana.

Desferindo a lira das ideias,
a que empresta todo o seu sentir,
disseca abertamente as velhas peias
que não deixam os povos progredir.

Com um poder de fácil expressão,
quase sempre interfere com visão
nos diálogos que buscam a verdade.

Por isso, exaltando seu pensar,
apenas a pretendo saudar
pelo muito que tem de humanidade.

Março de 1973
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JUSTO PREITO

À memória do saudoso António Morgado de Morais, democrata indefectível e coração transbordante de humanidade, com grande pesar.

A luta que travaste nesta vida,
em prol de um destino mais decente
foi tormentosa, íngreme subida
onde tem fracassado muita gente.

Sem desfalecimentos, sempre em frente
olhando os horizontes promissores,
foste um ardoroso combatente
de quanto ocasiona humanas dores.

No trabalho, bondade e exaltação
das ideias que o espírito libertam,
marcaste inconfundível posição.

Só quem assim lutou intensamente
contra todos os ventos que molestam,
está sempre na vida bem presente.

Maio de 1973
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SAUDAÇÃO

Ao Maestro e Compositor, António Vitorino de Almeida, astro rutilando no firmamento musical, com a maior admiração.

Destas margens do Letes sedutor,
onde escuto as histórias musicais,
quero saudar, com todo o meu calor.
suas belas mensagens quinzenais.

Programa de um valor incomparável
transmitido de forma original.
conduz-nos a um mundo inefável
por milagre do seu verbo genial.

De sólida e profunda erudição,
revela-nos, com requintes de expressão.
O que foram os deuses musicais.

Bem o merecem todos os autores
que, em constantes esforços criadores,
forjaram partituras imortais.

Junho de 1973
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NOS DOMÍNIOS DA UTOPIA

A glória que pensais ter conseguido,
e que não vos cansais de divulgar,
traduz um sonho louco, sem sentido,
que muito nos diverte e faz pensar.

Nada de excepcional por vós foi feito
que mereça atenções especiais;
nem ao menos do íntimo do peito
um brado contra as fraudes sociais.

Querer impor assim uma memoria,
não passa de uma insólita ambição
dos que fazem a vida sem história...

Mas, cumprir tal desejo, de que serve,
se nem sequer teria a duração
das efémeras rosas de Malherbe?

Julho de 1973
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IMPRESSÕES DA PRAIA

A uma jovem a quem a natureza prodigalizou dotes de beleza e elegância, e que através de um modo de vestir de sentido equilibrado e fino recorte, deixa transparecer todo o encanto da sua invulgar graça feminina.

Contrariando uma espécie de nudismo
que por aqui se expande livremente,
muito apreciamos seu inconformismo
no trajo que enverga altivamente.

Ao afeiçoar sua linha escultural
cuja beleza realça com primor,
suas vestes são exemplos de moral
a contrastar com tanto despudor.

Com mini-trapos só as criancinhas
gostamos de as ver arranjadinhas,
mostrando seu corpinho divinal.

Mas há moças que todos conhecemos
que se julgam felizes, como vemos,
desvendando sua forma corporal.         

ÂNCORA, Agosto de 1973                    
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AS NOSSAS FESTAS

De feição largamente popular
que a tradição sagrou como famosas,
mais uma vez se vão realizar
nas suas expressões maravilhosas,

Festas de uma grande alegria exuberante
que o povo acarinha com fervor,
seu programa é um cartaz aliciante
qualquer que seja o tom da sua cor.

Neste ambiente de edénica beleza
sempre atingiram foros de grandeza
os seus inolvidáveis festivais,

é que só o sortilégio da paisagem
tem o condão de ser uma vantagem
que as transforma em festas ideais.

Setembro 1973
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DIA DE FINADOS

Como uma estranha e triste sinfonia
que provoca nas almas emoção,
os sinos são a voz da nostalgia
a convidar-nos à meditação.

Dia da mais pungente saudade
dos que a morte ceifou no seu lidar,
um sopro de infinita piedade
domina as multidões, fá-las chorar.

Há preces junto às campas dos finados
que lágrimas sem fim fazem correr
aos corações de dor alanceados,

Mas é neste elevado sentimento,
difícil de igualar ou exceder,
que a vida atinge o seu maior momento!

Outubro de 1973
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A VOS DOS SINOS

De tradição pagã divinizada,
que os povos resolveram adoptar,
desde longe que vem sendo escutada
em tom festivo ou lúgubre dobrar.

Irmanando-os no mesmo pensamento
pelo chocante efeito do seu som,
os seres, num total recolhimento,
transcendem a sua humana condição.

Vibrando em metal mais requintado,
como decerto não havia outrora,
tem por vezes dolências de quem chora...

E ao fim da tarde, sem qualquer enfado,
podemos ainda ouvir a sua voz,
talvez rogando aos céus algo por nós!

Outubro de 1973
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COERÊNCIA IDEOLÓGICA

Para quem a consciência é o Sol de toda a hora.
Para quem a virtude e o pão de cada dia!

Guerra Junqueiro

Há indivíduos que todos conhecemos
que pretendem passar por democratas
mas seus anseios, se bem os entendemos,
não passam de ambições muito nefastas.

A democracia tem implicações
de mentalização libertadora,
onde o espírito, sem hesitações,
aceita toda a acção renovadora.

Ideário de justiça social,
visa a felicidade colectiva
sem jogos de interesse pessoal...

Por isso, e como seu único roteiro,
p'los democratas deve ser seguida
aquela nobre ideia de Junqueiro.

Dezembro de 1973
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MEDITAÇÃO

Aos meus netos, Manuel Painhas e José Aníbal, com muito apreço e amizade.

No mar morto da minha inspiração
não navegam as Musas com certeza.
porque não tem requintes de expressão
os versos que eu faço sem beleza.

Visando os mais caros pensamentos
que sempre preocuparam o meu ser,
são contudo aprazíveis os momentos
em que meus versos tenho de fazer.

Sempre as ideias gostei de ventilar.
ao calor do meu modo de pensar,
sem sombra de receios ou traições...

Só lamento que as Deusas do Parnaso
não reparem melhor neste meu caso,
fazendo-me as mais largas concessões

Fevereiro de 1974
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PRIMAVERA

Ao Jaime Campos, exemplo de coerência e dignificante humanidade, com as nossas homenagens.

Sempre alegre, cantante, promissora,
com roupagens floridas verdejantes,
mais uma vez, em formas deslumbrantes,
afirma a sua força criadora.

Mensageira de toda a confiança
a incentivar um grande amor à vida,
a Primavera é sempre recebida
como fonte da mais  doce esperança.

O Céu tem menos nuvens e mais luz
que o sol projecta a jorros sobre a terra
num efeito que a todos nos seduz...

É a hora da sua divina realeza,
demonstrando a riqueza que encerra
em cenas palpitantes de beleza!!!

Março de 1974
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HORAS DE DOR

À memória do inesquecível Contra-Almirante, Jorge Ramos Pereira, espírito dotado dos mais nobres sentimentos e elevados ideais, com nosso pesar.

Foi na verdade enorme a multidão
que, cumprindo um cívico dever,
manifestou sua dor, sua emoção,
p'lo golpe que acabara de sofrer!

É que morrera um Homem invulgar
que sempre defendeu a liberdade
num esforço constante, de louvar,
para bem desta pobre humanidade.

Assim o entendeu o povo agradecido
que acompanhou à ultima morada
o corpo do seu Grande e nobre amigo.

Homenagem sincera, comovente,
em honra de quem quase só pensava
nos tormentos que afectam muita gente!

Abril de 1974
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VIVA A LIBERDADE

Ao Glorioso Exercito Português, com as nossas saudações.

Há mais de quatro décadas detida
nas masmorras da humana estupidez,
mais urna vez voltou de novo a vida
para glória do povo português.

Foi uma época triste, tormentosa,
semelhante ao Calvário de Jesus,
em que, de uma forma impiedosa,
também a torturaram numa cruz!

Mas esta hora havia de chegar,
porque na vida tudo tem seu fim
e a tirania tinha de acabar...

Assim tornou em beleza a dar-nos Luz,
qual estridente som de um clarim
anunciando o fim da sua cruz!!!

Abril de 1974
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CATARINA EUFÉMIA
À memória desta jovem mártir alentejana, símbolo do verdadeiro povo, que há 20 anos, prestes a ser mãe e com um filho nos braços, foi barbaramente abatida a tiros de pistola pelos sequazes do fascismo dominante.

O crime que a vida TE roubou
e ao SER que em TEU ventre já vivia
foi de tal miserável cobardia
que outro pior jamais se praticou.

Só por pedires mais pão e liberdade
com raro desassombro e coragem,
falando da justiça a linguagem,
mataram-te com toda a crueldade!

Foram dias de dor e compaixão
que feriram a humana consciência,
ao saber deste crime sem perdão.

Penso que até os deuses prepotentes,
insensíveis a toda a violência,
choraram com a morte destes ENTES!

Maio de 1974
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NO RESCALDO DA VITÓRIA
A António de Baldrufa, Limiano ilustre e lutador de sempre na primeira linha das trincheiras da Liberdade, querido companheiro da nossa juventude sonhadora, com um grande e fraternal abraço e felicitações.

Depois da insuportável caminhada
feita de sacrifícios e de dor,
chegou a LIBERDADE DESEJADA
na máxima expressão do seu fulgor.

Quando já se diluía nossa esperança
de algum dia a vermos renascer,
eis que arranca com toda a segurança
derrubando um tirânico poder.

Cantemos pois hossanas de louvor
pelo regresso desta NOBRE DAMA
detentora do nosso grande amor.

E juremos que a vamos ESTIMAR,
criando a sua volta una TAL FAMA
que nunca mais a possam destronar...

Junho de 1974
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MÉRITO

Revelando um trabalho intensivo
ou uma natural inclinação,
o mérito c sempre positivo
seja qual for sua forma de expressão.

Mas querer atribuir esta virtude
a quem não a sabe ou pode conquistar,
é uma incompreensível atitude
que todos nos devemos condenar.

De falsos mitos já anda o Mundo cheio
com graves prejuízos para o povo
que deve eliminá-los do seu seio...

Deixemos de torcer por nulidades,
ajudando a criar um Mundo novo
na pureza das límpidas verdades.

Agosto de 1974
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ENCANTOS DO MAR

No quadro das belezas naturais
com que frequentemente se depara,
o Mar reúne em si encantos tais
que excedê-los é coisa multo rara.

Formando gigantescas cachoeiras
que sobre os molhes ao longe se desfazem,
as ondas, ruidosas e altaneiras,
neste labor eterno se comprazem.

Um mar de espuma cobre a penedia
que de repente emerge nua e fria
nos contornos da sua formação...

Depois, por tanto esforço despendido,
parece que se mostra adormecido
nos braços de uma calma ondulação!

ÂNCORA, Agosto de 1974
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GRATIDÃO

Teu esforço constante, glorioso,
visando o fim da nossa escravidão,
foi um trabalho de tal forma valioso
que e digno da mais viva exaltação.

Só quem tem ideias pode assim lutar
com toda a dignidade e isenção
despertando na alma popular
sentimentos de eterna gratidão!

Bem haja pois quem tanto concorreu,
sem receios de perigos ou de danos,
para o fim de um regimen que morreu.

Que Deus, lá nos confins do firmamento
nem sempre atento aos tratos desumanos,
saiba premiar o teu procedimento!!!
Depois de o ter justificado em breves palavras, foi este simples soneto que o seu autor leu no finai do jantar convívio promovido por alguns democratas de Ponte de Lima em honra de António de Amorim, de momento o expoente máximo da democracia e cultura Limianas.

Agosto de 1974
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CONCEITOS DEMOCRÁTICOS

Mudar de ideias e uma obrigação
que se impõe a todo o ser pensante;
mas o processo dessa evolução,
não pode efectivar-se num instante.

Só p'los longos caminhos da cultura
de feição amplamente universal
podemos conseguir essa ventura
com garantia de êxito total.

Mas mudar de ideias como de camisa
é um acto de pura inconsciência
que só rebaixa quem o concretiza...

A democracia obriga a sacrifícios
que devemos aceitar com paciência
em troca dos seus grandes benefícios.

Setembro de 1974
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SIM, QUEM FOI?
Ao José Valente Fiúza, cidadão de reconhecidos méritos profissionais, incansável combatente das causas da liberdade e emancipação social, uma das primeiras vítimas locais das perseguições dos fanáticos salazaristas, com as nossas sinceras homenagens.

Quem foi que lhes impôs o fim da vida
roubando-os ao aconchego do seu lar
que eles muito gostavam de gozar
numa constância sempre apetecida?

Quem foi que arquitectou essa arrancada
que os havia de levar a inacção,
numa constante e feroz perseguição
decerto raramente igualada?

Quem foi que tudo isso preparou
com um impressionante desamor
toldando a tantas vidas seu Sol-pôr?

Sim, quem foi afinal que destroçou.
p'lo maldito prazer de torturar,
a existência de quem só sabia amar?

Dezembro de 1974
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CAPRICHOS DO DESTINO

À memória dos saudosos e inolvidáveis Dr. Teófilo Carneiro e Adelino Sampaio, ilustres cidadãos que sempre gozaram da mais honrosa e justificada fama em toda a nossa região, e que, pela sua luminosa inteligência, inteireza de carácter e indomável espírito de combate, muito contribuíram para a vitória da Democracia em Portugal.

Depois de grande esforço dispendido
em prol da Liberdade amordaçada,
que pena foi não terdes assistido
à Vitória por nos tão desejada!

Eu compreendo a alegria inebriante
que dominaria vossos corações,
Se a morte, num labor sempre constante,
não impedisse as suas pulsações.

Mas o destino, os deuses, sei lá quem,
sem respeito p'la vida de ninguém,
exercem cruelmente a sua acção,

Não vos deixando ver a Força Armada
fazer soar na mais linda madrugada,
a hora libertadora da Nação!

Janeiro de 1975
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NO EPÍLOGO DE UMA HONROSA CARREIRA
Surpreendeu-me deveras a notícia
de não mais exercer suas funções,
que com muita elegância e perícia
desempenhou com nobres intenções.

Mas outra coisa não era de esperar
de quem sempre viveu a humana dor,
norteando seu modo de pensar
p'los divinos ditames do amor!

Fazendo uma cultura com paixão.
virtude que há muito lhe conheço,
marcou na vida honrosa posição.

Como a sua, só as almas superiores.
que venero com intimo apreço,
são credoras de todos os louvores!...

Este soneto foi lido pelo seu autor no decorrer do banquete de homenagem efectuado no Luziamar, da Praia do Cabedelo, de Viana do Castelo, em honra do Sr. Manuel Martins de Araújo, Subdirector de Finanças deste distrito, a propósito da sua voluntária aposentação.

Março de 1975
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NOS ARCANOS DO AMOR

À memória do saudoso ARTISTA LIMIANO, José Manuel Dantas de Melo (Mica Mé), figura de justificada popularidade e activo militante do partido comunista, cuja vida promissora teve um trágico e lamentável fim.

Não sei se nesta terra que ele amava
o povo algum dia mais chorou
do que por este filho que adorava
e a morte para sempre arrebatou!

De uma simpatia irradiante,
era um artista nato, criador,
e um grande entusiasta, um militante
do partido que luta contra a dor!...

Seu funeral civil foi imponente,
p'la enorme multidão que, tristemente,
não mais até ao fim o abandonou.

Depois, a emocionante despedida,
com palavras de mágoa sentida
por um jovem que o povo consagrou!

Fevereiro de 1975
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APÓS AS ELEIÇÕES
Com um grau de civismo invulgar,
como outrora por certo nunca o fez,
foi às urnas de forma singular
a maioria do povo português!

Só foi pena que ainda se usasse
um caciquismo oculto, medieval,
e algum acolhimento encontrasse
nos vassalos que não têm um ideal,

Mas a luta não pode terminar,
enquanto estas almas rastejantes
não souberem escolher seu caminhar.

É preciso que a voz do pensamento
se faça ouvir em todos os quadrantes,
combatendo tão vil procedimento.

Maio de 1975
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SOMOS LIVRES
À ilustre e feliz autora desta revolucionaria canção, Dra. Ermelinda Duarte, com as nossas felicitações.

Sua canção é um hino de esperança
com música tão cheia de beleza
que desperta uma enorme confiança
na vitória da luta portuguesa.

Só quem vive os sublimes ideais
de ver a humanidade redimida
pode dizer, em notas musicais,
como queremos outra melhor vida.

Ilustrada com quadros sugestivos,
numa visão perfeita da verdade,
seus efeitos resultam construtivos.

Por isso, gosto de ouvir constantemente,
na sua expressiva musicalidade,
esta canção que agrada a muita gente!...

Maio de 1975
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EVOCAÇÃO
À memória do saudoso poeta e jornalista, David da Rocha Braga, democrata convicto e distinto colaborador deste velho e prestigioso baluarte da defesa dos interesses locais e das liberdades públicas.

Recordo com enorme saudade
o calor com que sempre defendia
o direito da nossa Liberdade
que Ele do coração estremecia.

Dominado por este pensamento,
que manteve com cívica coragem,
não duvidou sequer um só momento
desta profunda histórica viragem.

E que tal como a Fénix do Mistério,
que das suas próprias cinzas renasceu.
assim a Liberdade aconteceu!

Porque não viu de novo o seu Império,
para o qual trabalhou com devoção.
recorda-Lo é um dever de gratidão.

Junho de 1975
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NO LIMIAR DE UMA NOVA VIDA
Soneto lido pelo seu autor no final da boda dos jovens Deolinda Maria Rosas Campelo da Rocha e José Justino Franco Arieiro.

Nesta festa solene, inesquecível,
que transcende as mais caras ambições,
eu compreendo a alegria indescritível
que incendeia os vossos jovens corações.

É pois dia de festa, festa grande,
como outra não terá maior calor,
porque é a própria vida que se expande
nas divinas delícias do amor!

Mas, qual mar em perpétua ondulação,
também a vida e sempre oscilação
entre os ventos da sorte e da amargura...

que Ela seja p'ra vós mãe Carinhosa.
numa constante vida cor de rosa,
sem sombras da mais leve desventura!...

Agosto de 1975
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MISSÃO CUMPRIDA
A propósito do enlace da nossa jovem e simpática conterrânea, Margarida Celeste de Sousa Fernandes.

Cumprida a missão que encetamos
da tua educação e teu destino,
aqui estamos, alegres e ufanos,
cantando da Vitória o nosso hino.

Hino que só de amor pode ser feito.
sem especulações espirituais,
ou não fosse Ele o único preceito
que condiciona os nossos ideais.

Ao levantares ferro deste porto,
onde sempre tiveste humano abrigo,
que outro demandes com maior conforto!...

E nesta simples forma de cantar,
que traduz um sentir muito amigo,
só queremos teu enlace saudar!

Setembro de 1975
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UM LIMIANO INESQUECÍVEL
À memória do saudoso e sempre lembrado Avelino Guimarães, proprietário e director que foi do seu querido e conceituado Jornal «Cardeal Saraiva», bairrista sem par, e um dos mais bondosos cidadãos que nas foi dado conhecer, vítima de miseráveis perseguições pela sua dedicação à nobre causa da democracia, cujo nome honrado, desde há muito e sem favor, devia estar assinalado numa das ruas desta fascinante Terra.


Só quem o conheceu profundamente
no seu modo singelo de viver
pode afirmar, indubitavelmente,
que outra Alma melhor não pode haver.

Liberto das funestas ambições
que transformam a vida num calvário.
nunca lhe interessaram posições
que desmentissem seu belo ideário.

Como grande bairrista, incomparável,
ninguém o excedeu no seu fervor
por esta Terra linda... admirável!...

Foi na verdade um Vulto Limiano
que viveu intensamente a alheia dor
pelo muito que tinha de humano!

Outubro de 1975
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GLOSANDO . . .

A arte é força imanente,
não se ensina, não se aprende,
não se compra, não se vende,
nasce e morre com a gente.

(Do grande e popular poeta Algarvio António Aleixo)


Como lava de um vulcão
que irrompe abruptamente
numa espantosa erupção,
a arte é força imanente.

É um dom pouco vulgar
que o povo bem entende,
pois o seu desabrochar
não se ensina, não se aprende.

Só um louco sonhador
não sabe, não compreende
que seu fogo criador
não se compra, não se vende.

Graça divina, bendita,
que brilha em poucos somente,
sua beleza infinita
nasce e morre com a gente.


Até nas quadras que faço
aos podres que o mundo tem,
sinto que sou um pedaço
do mesmo podre também.

(Do mesmo grande poeta)


Que tenho alguns defeitos
confesso-o a cada passo,
porque vejo os seus efeitos
até nas quadras que faço.

Nesta perturbada era
em que luto pelo bem,
reajo com uma fera
aos podres que o mundo tem.

Combate que me anima
sem nunca sentir cansaço,
mas do mal que me amofina
sinto que sou um pedaço.

Porque é da humana fraqueza
perfeito não ser ninguém,
tenho muito, com certeza,
do mesmo podre também.

Outubro de 1975
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UM INCONFUNDÍVEL ARTISTA LIMIANO
À memória de Joaquim Manuel de Lima (JOAQUIM SANTEIRO), famigerado Artista da Arte de Entalhar, democrata intransigente. naturista apaixonado, querido e inesquecível Amigo, cujo nome, pelos dotes excepcionais que exornavam seu formoso espírito, desde há muito, e sem favor, devia  estar integrado na toponímica local.


Grande Mestre da Arte de Entalhar
que muito honrou com todo o seu saber,
nunca se enfatuou nem deixou de amar
a sua modesta forma de viver.

Era um encanto vê-lo trabalhar
nos difíceis estilos consagrados,
em que, de um modo muito singular,
demonstrava seus raros predicados.

Entusiasta da causa naturista,
que sempre norteou o seu viver,
foi ainda um firme e nobre idealista.

Profundamente bom, de uma só crença
que sem tergiversar soube manter,
merece bem aquela recompensa!
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NOTA DO AUTOR—Para quem quiser conhecer mais detalhadamente a Mestria deste admirável Artista, bem como seu estofo moral e ideológico, deve consultar o Elucidário Regionalista de Ponte de Lima, coordenado pelo jornalista Augusto de Castro e Sousa, e o n. 1777, de 10-1-1957, do digno e conceituado Jornal «Cardeal Saraiva».

Novembro de 1975
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GLOSANDO…

A quadra tem pouco espaço
mas eu fico satisfeito
quando numa quadra faço
alguma coisa com jeito.

(António Aleixo)

É na verdade um prazer
fazê-la sem embaraço,
mas, como devem saber,
a quadra tem pouco espaço.

Numa área tão pequena
conseguir algo perfeito
pode não valer a pena
mas eu fico satisfeito.

Se me esforçando resulta
qualquer obra com compasso,
sinto-me bem nesta luta
quando numa quadra faço.

Mas se por inspiração
tomar meu caso a peito
decerto farei então
alguma coisa com jeito.

Novembro de 1975
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NO CAMPO DAS IDEIAS

Por um anúncio ter lido,
inserto neste Jornal,
que lhe feriu o sentido
da sua velha moral,
um senhor pouco elegante.
e de maneira informal,
deixou de ser assinante
deste VELHO CARDEAL.

Se não fosse a valentia
de o seu nome ocultar
na carta em que referia
este jornal detestar,
tínhamos muito respeito
por seu modo de pensar.
pois todos têm o direito
de livremente falar.

Mas querer lançar a pedra
e logo a mão esconder
é uma nefasta regra
que se deve combater.
Para ideias contestar.
seja qual for sua cor,
nada há que recear
mas fazê-lo SEM RANCOR.

O contrário é FANATISMO
que as almas não deixa ver
em qualquer idealismo
o que de bom possa ter.
Leia, medite, discuta,
não tenha medo a ninguém,
porque e sempre nobre a luta
que se trava em prol do bem.

Mesmo dos velhos papões
que os tiranos criaram,
não receie os caldeirões
que eles imaginaram;
são apenas fantasias.
meras especulações.
só para serem os guias
dos vassalos, dos poltrões.

Se pretendemos honrar
esta hora em que vivemos,
temos todos de lutar
mas saber o que fazemos;
e só com o suor do rosto
ganhar o pão que comemos,
sentindo o intimo gosto
da causa que defendemos.

E aos outros não desejar
o que não serve p'ra nós,
para podermos falar
em bom som e alta voz,
exaltando a cultura,
base das grandes ideias,
que nos concede a ventura
e quebrar todas as peias.

Porque sempre assim pensamos,
por hoje aqui nos ficamos.

Dezembro de 1975
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A BATALHA DA VIDA

Quer seja sob o calor de uma fornalha
ou suportando o frio mais inclemente,
a luta pela vida é uma batalha
que temos de travar constantemente.

Mas se fosse possível decretar
ao trabalho ninguém poder fugir,
seria a transformação mais salutar
para atingirmos um feliz porvir.

Resolver este cancro social
que ao Mundo provoca tanto mal,
maior bem não podia acontecer.

Só assim os que nunca trabalharam
e a vida dos outros estorvaram
passariam a honrar o seu viver.

Janeiro de 1976
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A GRANDE VERDADE

Sem cultura não há democracia
que possa exercer a sua acção,
banindo lentamente a burguesia
através de uma activa evolução.

É que seu fim não é só a aprendizagem
da técnica de certas profissões
que sendo na verdade uma vantagem
não nos leva as sociais transformações.

Cultura é um saber tão vasto e profundo
que do seu consciente entendimento
resulta a felicidade para o mundo.

Mas só varrendo a negra escuridão,
inimiga da luz do pensamento,
comprova a sua válida função.

Fevereiro de 1976